A GRAÇA ESCANDALOSA
É indiscutível
que vivemos em uma era de superexposição. Há quem não consuma uma refeição
simples sem antes registrá-la e compartilhá-la em suas redes sociais. Nesse
cenário, raramente alguém se dispõe a publicar aspectos negativos ou expor
dramas familiares desabonadores. O que se vê são recortes meticulosamente
selecionados de uma narrativa muito mais ampla, da qual as passagens
contraproducentes ou embaraçosas são deliberadamente omitidas.
Imagine,
contudo, se alguém decidisse trilhar o caminho oposto. Considere alguém que, em
vez de ocultar as facetas obscuras de sua história e de sua linhagem, optasse
por conferir-lhes destaque. Foi precisamente essa a abordagem de Jesus. Embora
a redação tenha sido de Mateus, compreendemos que, sob a inspiração divina, a
revelação provém, em última instância, do próprio Deus.
Logo nas linhas
iniciais do Evangelho, deparamo-nos com quatro relatos complexos e, sob certos
aspectos, terríveis na genealogia de Jesus. Antes de prosseguirmos, é
necessário pontuar que, na Antiguidade, as genealogias funcionavam como
registros oficiais que garantiam a legitimidade e o status de um indivíduo. O
Evangelho de Mateus foi escrito primordialmente para leitores judeus que
aguardavam o Messias — o rei prometido, descendente de Davi e restaurador de
Israel.
A genealogia
apresentada por Mateus, entretanto, rompe com os padrões da época. Naquele
contexto, tais registros raramente incluíam mulheres; quando o faziam,
limitavam-se às grandes matriarcas. Contrariando o costume vigente, Mateus ignora
as convenções e inclui quatro mulheres que dificilmente seriam citadas por um
escriba zeloso: Tamar (que coabitou com o sogro), Raabe (uma prostituta
cananeia), Rute (uma viúva estrangeira e desvalida) e Bate-Seba (cuja história
foi marcada pelo adultério e pelo escândalo).
Qual seria o
propósito de Mateus? A conclusão inescapável é que ele desejava evidenciar a
natureza da “graça escandalosa”. Analisaremos, a seguir, quatro dimensões dessa
graça, personificadas em cada uma dessas mulheres.
A
GRAÇA QUE ALCANÇA O DESESPERO
“Judá gerou de Tamar a
Perez e a Zera.” (Mateus 1:3a).
Quem foi Tamar?
Sua trajetória está registrada em Gênesis 38. Tamar era uma cananeia que se
casou com Er, primogênito do patriarca Judá. O texto bíblico não detalha seu
caráter, mas afirma que ele não era íntegro perante o Senhor, o que resultou em
sua morte prematura (Gênesis 38:7).
Segundo a Lei do
Levirato, o irmão mais próximo deveria desposar a viúva para assegurar a
descendência do falecido. Essa obrigação recaiu sobre Onã. Contudo, Onã, ciente
de que os herdeiros não seriam legalmente seus, agiu de má-fé para evitar que
Tamar concebesse. Tal atitude desagradou a Deus, que também lhe tirou a vida
(Gênesis 38:9-10).
A
responsabilidade seguinte caberia a Selá, o irmão caçula, que ainda não possuía
idade para o matrimônio. Judá prometeu que, quando o jovem crescesse, ele se
casaria com a viúva. O tempo passou e Judá negligenciou o cumprimento da
promessa. Tamar viu-se esquecida: viúva, sem filhos e desprovida de qualquer
amparo social ou perspectiva de futuro.
Diante da
injustiça, ela tomou uma decisão desesperada e moralmente controversa:
disfarçou-se de prostituta cultual e colocou-se no caminho de Judá (Gênesis
38:14). Judá, sem reconhecê-la, coabitou com ela. Estratégica, Tamar obteve
dele o selo, o cordão e o cajado como garantias. Meses depois, ao saber da
gravidez de Tamar, Judá reagiu com implacabilidade, sentenciando-a à morte
(Gênesis 38:24).
No entanto,
Tamar apresentou os objetos pertencentes ao homem que a engravidara. Confrontado
com a prova, Judá não teve alternativa senão reconhecer sua própria falha moral
(Gênesis 38:26). É fundamental observar que Deus não aprovou os pecados de Judá
ou de Tamar. Entretanto, em meio a uma situação escandalosa e humanamente
irreparável, o Senhor teceu Seu propósito redentor.
De um dos gêmeos
nascidos dessa união, Perez, descendeu o rei Davi e, consequentemente, o
Messias. A soberania de Deus é admirável. Do caos de nossas existências, Ele
faz emergir os desígnios de Seu plano redentor. Ele domina inclusive sobre a
desordem, não aguardando circunstâncias ideais para agir. Como Paulo escreveria
séculos mais tarde:
“Onde abundou o pecado,
superabundou a graça.” (Romanos 5:20b).
Talvez sua vida
atravesse um período de caos ou desespero semelhante ao de Tamar. Pode ser que
não haja, aos olhos humanos, uma saída honrosa e que o esquecimento pareça ser
seu único destino. Contudo, a história de Tamar nos ensina que o Senhor observa
as injustiças e a indiferença. Ele é poderoso para reescrever narrativas a
partir das cinzas e do desalento.
A
GRAÇA QUE TRANSFORMA A REPUTAÇÃO DESTRUÍDA
“Salmom gerou de Raabe
a Boaz.” (Mateus 1:5a).
Outra figura
central na genealogia de Jesus é Raabe, uma cidadã cananeia de Jericó, cidade
que estava sob julgamento divino. Raabe não era uma cidadã comum; era uma
prostituta, uma mulher socialmente marginalizada. Teoricamente, possuía todos
os requisitos para ser excluída da linhagem messiânica.
No entanto, ao
receber os servos de Deus em sua cidade, ela os protegeu e proferiu uma
confissão de fé tão profunda quanto a dos próprios israelitas. Ela reconheceu o
Senhor (Yahweh) como o Deus dos céus e da terra (Josué 2:9-11), ecoando o que o
próprio Moisés ensinara ao povo (Deuteronômio 4:39). Como recompensa por sua
fé, ela e sua família foram poupadas da destruição.
Além disso, ela
foi integrada ao povo de Deus, casou-se com Salmom e gerou Boaz — que viria a
ser o resgatador de Rute e bisavô de Davi. É notável como o autor da Epístola
aos Hebreus a inseriu na galeria dos heróis da fé:
“Pela fé, Raabe, a
meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos
espias.” (Hebreus 11:31).
Tiago também a
cita em sua epístola:
“De igual modo, não foi
também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os espias e os
fez partir por outro caminho?” (Tiago 2:25).
Observe que os
autores sagrados não omitem a ocupação anterior de Raabe; não houve tentativa
de higienizar o seu passado. Isso demonstra que a Escritura não oculta nossa
história pregressa, justamente para que a eficácia da graça seja evidenciada.
A “graça
escandalosa” não exige uma reputação ilibada como pré-requisito para a
aproximação com o Divino; é o próprio Deus quem nos purifica após nos
achegarmos a Ele. Embora a sociedade possa insistir em rotulá-lo pelo seu
passado, Deus sonda o coração. Raabe era uma mulher desprezada que converteu
sua vida e tornou-se uma serva honrada.
Esse relato nos
desafia a olhar para o próximo sob a perspectiva divina. Se Ele incluiu uma
ex-prostituta na linhagem de Cristo, não nos cabe excluir ninguém em virtude de
sua trajetória pretérita.
A
GRAÇA QUE ACOLHE OS EXCLUÍDOS
“Boaz gerou de Rute a
Obede.” (Mateus 1:5b).
Conforme
mencionado anteriormente, Raabe foi a mãe de Boaz, que se casou com Rute. Sendo
Rute uma moabita, é essencial compreender o contexto legal della época: a Lei
determinava que nenhum moabita poderia ser admitido na assembleia do Senhor,
devido à indiferença e à crueldade demonstradas para com Israel (Deuteronômio
23:3-4). Assim, sob a perspectiva estrita da Lei, Rute era uma excluída. Sua
situação era extremamente precária.
Além da
nacionalidade desfavorável, ela era uma viúva pobre — a categoria social mais
vulnerável no mundo antigo —, sem filhos e sem posses. Em suma, sob uma análise
puramente humana, ela não possuía perspectivas de futuro. Entretanto, Rute
tomou uma decisão que alterou o curso de sua história ao proferir uma das
confissões mais sublimes do Antigo Testamento:
'Não me instes para que
te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e,
onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é
o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o
SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar
de ti' (Rute 1:16-17).
Rute não
escolheu apenas viver com sua sogra; ela escolheu viver para o Deus dela. Ela
não apenas mudou de país, mas atravessou uma transição de identidade
espiritual. Embora a Lei restringisse a inclusão de moabitas na comunidade, é
necessário compreender que a graça não contradiz a Lei, mas a transcende.
Enquanto a Lei julgava uma nação pagã, Rute, individualmente, entregou seu
coração a Deus, e essa entrega transformou sua realidade.
Em Sua
soberania, Deus não apenas salvou Rute, mas a exaltou. Aquela que era excluída
casou-se com Boaz, um nobre de Belém, e gerou Obede, o avô do rei Davi.
Trata-se da graça escandalosa em operação.
A
GRAÇA QUE REDIME O ESCÂNDALO.
'Jessé gerou ao rei
Davi. Davi gerou a Salomão, da que fora mulher de Urias' (Mateus 1:6).
Frequentemente
questiona-se por que Mateus omitiu o nome de Bate-Seba para citar o de Urias,
seu esposo. Tal escolha não foi um lapso, mas uma estratégia intencional. Ao
mencionar Urias, Mateus induz o leitor a recordar o escândalo envolvendo o rei
Davi.
O evangelista
não suaviza a narrativa marcada por adultério, homicídio e abuso de poder
perpetrados pelo maior rei de Israel, o homem segundo o coração de Deus. Tais
eventos são detalhados em 2 Samuel 11 e 12. Do terraço de seu palácio, Davi
avistou Bate-Seba e, ciente de que ela era esposa de um de seus oficiais,
possuiu-a. Urias não era um soldado comum, mas um dos 'valentes de Davi' (2
Samuel 23:39), um guerreiro de elite.
O ato resultou
em uma gravidez e, para ocultar o pecado, Davi convocou Urias do campo de
batalha, esperando que ele dormisse com sua esposa. No entanto, as expectativas
do rei foram frustradas: em solidariedade aos seus companheiros de armas, Urias
recusou o conforto de sua casa. Diante do fracasso de seus planos, Davi
arquitetou a morte do oficial, ordenando que o general o posicionasse na linha
de frente mais perigosa. Após a morte de Urias, Davi tomou Bate-Seba por
esposa.
Contudo, Deus
não ignora a culpa. O profeta Natã foi enviado para confrontar o pecado real (2
Samuel 12:7). Diante da acusação, Davi arrependeu-se e recebeu o perdão divino
(2 Samuel 12:13), arrependimento este documentado com profundidade no Salmo 51.
A graça transformou uma história iniciada em tragédia. De Bate-Seba nasceu
Salomão, o sábio, de cuja linhagem descendeu o Messias.
Isso não
significa que Deus tenha anulado as consequências temporais do pecado: o
primeiro filho do casal faleceu e a violência marcou a descendência de Davi. A
graça não elimina as consequências, mas redime a história. Nenhum pecado é tão
magnânimo que Deus não possa perdoar, nem história tão manchada que Ele não
possa reescrever. Isso não constitui um salvo-conduto para o erro, mas a
esperança de remissão.
'Se confessarmos os
nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar
de toda injustiça' (1 João 1:9).
Observe o
panorama pintado pela graça: Tamar, desprezada e esquecida; Raabe, uma meretriz
em um povo sob juízo; Rute, uma viúva pobre de uma nação excluída; e Bate-Seba,
marcada pelo adultério e pela morte. Mateus poderia her selecionado nomes
considerados mais 'honrados', mas, por inspiração divina, elegeu quatro
mulheres que a sociedade da época excluiria.
Elas foram
honrosamente inseridas na linhagem do Rei dos reis. Ao incluí-las, Mateus
pregava um sermão: Jesus não veio para os que se consideram autossuficientes em
sua moralidade, mas para os pecadores e marginalizados. Ele demonstrou que os
excluídos podem alcançar a nobreza espiritual ao encontrarem a Deus.
'Os sãos não precisam
de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores ao
arrependimento' (Lucas 5:31-32).
Com qual dessas
trajetórias você se identifica? Com Tamar, no esquecimento e na luta pela
sobrevivência? Com Raabe, carregando um rótulo social difícil de romper? Com
Rute, sem recursos ou raízes? Ou com Bate-Seba, envolvida em uma história que
manchou sua reputação? Independentemente de seu passado, a mensagem da
genealogia de Cristo é clara: há lugar para você no Reino de Deus. A graça
divina é escandalosa para os religiosos e moralistas, mas é a única esperança
para os que se reconhecem perdidos.
![]() |
| Ricardo Castro Pastor, Escritor, Músico e Doutor em Teologia |



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