OS ELOS DA CADEIA DA ESPERANÇA
E não somente isto, mas também nos gloriamos nas
próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a
perseverança, experiência; e a experiência, esperança. (Romanos 5:3-4)
O sofrimento é uma experiência comum a todos os humanos e a forma como cada um de nós lida com ele difere muito. Todavia, um comportamento quase universal é o questionamento do tipo “Para que serve o sofrimento?”. Mas essa não é uma pergunta de acovardamento, mas sim de consciência. Ninguém sofre confortavelmente. E a Bíblia, que é a Palavra de Deus, reconhece que sofrer não é fácil. Inclusive, ela conta a história de diversos homens e mulheres de Deus que sofreram muito. Além disso, ela conta a história do Filho de Deus, o homem de dores, que sofreu agruras terríveis.
Mas, o Novo Testamento oferece algo que nenhuma das filosofias humanas conseguiu construir com a mesma solidez: uma teologia do sofrimento, que não o alimenta, mas lhe dá um novo significado. Paulo não diz que a tribulação desaparece. Ele fala a respeito do que ela produz. Tiago não diz que a provação é agradável. Ele diz que ela aperfeiçoa. O autor aos Hebreus não diz que a carreira é fácil. Ele diz que devemos corrê-la com perseverança.
Nas epístolas do Novo Testamento, o Espírito Santo revela uma cadeia inquebrável: da provação à glória, mas passando pelo processo. Neste texto, proponho-me a percorrer essa cadeia elo por elo, descobrindo que o sofrimento, nas mãos de Deus, nunca é desperdício.
A TRIBULAÇÃO: O INÍCIO DO PROCESSO
No texto de Romanos 5, o apóstolo Paulo nos revela uma cadeia de perseverança com diversos elos: alegria, perseverança, experiência, esperança. E ele dá início a apresentação dessa cadeia com uma afirmação que desafia a lógica natural, pois ele nos diz que antes da perseverança, deve vir a alegria.
E não somente isto, mas também nos
gloriamos nas próprias tribulações. (Romanos 5:3a)
Paulo usou o verbo grego kauchaomai que não denota um fingimento hipócrita da alegria, mas sim uma proclamação orgulhosa. Porém ele não está ensinando que o sofrimento é bom em si mesmo, ele está afirmando que o sofrimento está dentro de um propósito que merece ser celebrado.
Tiago é ainda mais enfático quando radicaliza essa perspectiva com uma ordem direta:
Meus irmãos, tende por motivo de toda
alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé,
uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação
completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes. (Tiago
1:2-4)
Muitas pessoas interpretam erroneamente estas palavras de Tiago pensando que ele está se referindo a uma reação emocional diante das lutas. Mas quando ele fala de “ter motivo de alegria” não está usando um imperativo emocional, mas sim teológico. Ele não diz para ter resiliência, mas alegria. A alegria aqui nasce do saber e não do sentir. Aquele que sabe o que a tribulação produz, pode se alegrar mesmo antes de ver o resultado.
Tiago usa o termo grego thlipsis, que foi traduzido como “tribulação”, que traz a ideia de estar sendo espremido ou comprimido sob peso. Entendemos, então, que ele não está falando de uma dificuldade superficial, mas sim de uma pressão que, se não houver base sólida, esmaga. E Paulo sabia bem do que Tiago estava falando, pois ele mesmo já fora alvo de muitas pressões como esta. Vemos isso quando ele disse:
Em tudo somos atribulados, mas não
angustiados (2 Coríntios 4:8)
Então, a pressão é real, mas o esmagamento não é inevitável. Isso porque temos uma base sólida que nos sustenta e nos dá motivos para nos alegrarmos, mesmo estando sob pressão.
Devemos aprender de vez que, Deus tem propósito com a tribulação, pois com Ele, ela é apenas o início do processo e não o ponto final.
Deus quer que enfrentemos o sofrimento não como uma coisa a ser suportada, mas sim, interpretada. Existe uma diferença abissal entre o crente que apenas suporta a dor e aquele que entende que Deus está produzindo algo por meio dela. A questão, então, não é “quando isso vai acabar?”, mas “o que isso está gerando?”.
Contudo, saber que Deus tem propósito com a tribulação não é suficiente, é necessário que saibamos qual a resposta que Ele espera de nós diante da pressão. E é exatamente aí que entra o segundo elo da cadeia.
A PERSEVERANÇA: A RESPOSTA QUE
TRANSFORMA O SOFRIMENTO EM CARÁTER
O segundo elo da cadeia é a perseverança. A perseverança é uma virtude extremamente necessária nos nossos dias, pois é comum que as pessoas desistam precocemente de seus propósitos, já que, como disse o filósofo polonês Zygmunt Bauman, estamos vivendo numa sociedade líquida, onde tudo é fluído e sem consistência.
Mas, o que é perseverança? Para designá-la, a Bíblia usa a palavra grega hypomonē, que quer dizer “permanecer sob o peso sem fugir”. Porém não é a paciência de quem espera estático, mas sim, a firmeza de que, mesmo sob pressão, continua se movimentando.
O autor da epístola aos Hebreus conclama uma nuvem de testemunhas do Velho Testamento como evidência de que isso é possível:
Portanto, também nós, visto que temos a
rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e
do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira
que nos está proposta. (Hebreus 12:1)
Entretanto, devemos observar que esta nuvem de testemunhas não serve apenas como algo decorativo, mas, pelo contrário, ela é um instrumento motivacional. Ou seja, os homens e mulheres de Deus que perseveraram em meio às tribulações antes de nós, servem como um forte exemplo para que perseveremos na atualidade.
O terceiro elo da cadeia é a experiência, do grego dokimē, que traz o sentido de “caráter aprovado, testado e autenticado”. Esse termo grego era geralmente usado na metalurgia para se referir ao metal que passou pelo fogo e se provou puro. Assim, aprendemos que o elo anterior (a perseverança) não apenas mantém o crente de pé e em movimento, ela o aprova por meio da experiência, o elo seguinte da cadeia. Em duas passagens muito fortes em Filipenses, Paulo expressa essa verdade:
Para o conhecer, e o poder da sua
ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua
morte.(Filipenses 3:10)
E em seguida:
Irmãos, não penso que eu mesmo já o
tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para
trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de
ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus. (Filipenses
3:13-14)
Paulo está nos ensinando que a vida espiritual não é passiva e estática, mas, pelo contrário, é um progresso, um movimento contínuo para frente. Muitas pessoas têm o passado como uma âncora que às prendem a experiências marcantes tanto boas quanto dolorosas. Mas o apóstolo nos ensina que o passado não pode nos prender, mas sim ser um ponto de referência. E com a expressão a “comunhão dos sofrimentos de Cristo”, nos mostra que o crente persevera não apenas suportando a tribulação mas, na verdade, está participando espiritualmente da própria experiência do Senhor.
De que forma você tem experimentado as provações? Você
as tolera passivamente, aguardando que elas passem para retornar à sua rotina
normal? Ou tem respondido com firmeza sob o peso que não te impede de avançar?
Que Paulo seja um exemplo para nós, pois ele não esperava que as coisas melhorassem para servir a Deus. Ele o servia em meio às tribulações. A perseverança verdadeira não paralisa, mas avança, mesmo que seja lentamente.
Se a tribulação é o ponto de partida e a perseverança é a resposta que Deus quer de nós, então existe um destino para esta trajetória que é muito mais glorioso do que qualquer sofrimento que o antecedeu. E assim chegamos ao último elo da cadeia.
A ESPERANÇA: O CARÁTER APROVADO PELO
FOGO
O último elo da cadeia que Paulo revela em Romanos 3 é a esperança. Mas esta não é uma esperança ingênua. Ela passou pela tribulação, pela perseverança, pela experiência e chegou do outro lado ainda de pé. Ela foi testada e não falhou. Diante disso, Paulo ainda acrescenta:
E a esperança não traz confusão, porque
o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos
foi dado. (Romanos 5:5)
A base firme da esperança não é a ausência de sofrimento, pois isto é impossível. Ela é baseada na presença e no agir do Espírito Santo. A esperança está ancorada no amor de Deus que é derramado em nossos corações e não em circunstâncias externas.
Para corroborar com isso tudo, Paulo reconfigura a nossa perspectiva a respeito das tribulações.
Porque a nossa leve e momentânea
tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação. (2
Coríntios 4:17)
Neste trecho, o apóstolo traça paralelos importantíssimos. Primeiro, ele diz que a tribulação é leve e momentânea. Isso pode parecer uma incongruência para quem sofre. Até o próprio apóstolo sofreu tribulações que nós nunca sofreremos. Então, porque ele diz que a tribulação é momentânea? Ele não está querendo minimizar as tribulações, mas está mostrando que, mesmo que as tribulações sejam muito intensas, elas são desproporcionais diante da glória que elas produzem. Devemos também notar que ele diz que a glória tem um “peso eterno”, enquanto que as tribulações tem apenas uma leveza temporária. Essa percepção muda tudo. Paulo sela sua própria história com essa convicção inabalável:
Combati o bom combate, completei a
carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o
Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos
quantos amam a sua vinda. (2 Timóteo 4:7-8)
Quando Paulo escreveu estas palavras ele não estava de férias em um cruzeiro, mas numa cela romana e com sua execução já sentenciada. Ele fez esta afirmação porque a sua fé estava ancorada no Senhor que julga retamente. No horizonte que o apóstolo contemplava não estava a sua sentença, mas sim a coroa da justiça. E esta coroa não é uma ideia subjetiva para consolar os que sofrem. Ela é uma certeza escatológica.
Se o horizonte que você contempla hoje só estão as circunstâncias presentes você vai oscilar conforme elas oscilam. Porém, se você contempla a glória que está reservada para aquele Dia, nenhuma das circunstâncias presente terá o poder de roubar a tua esperança. Você não oscilará, não enfraquecerá em nem titubeará. Mas ficará firme como firme é a esperança da Glória de Cristo.
A cadeia está completa: alegria → tribulação → perseverança → caráter aprovado → esperança. Entender cada elo desta cadeia não nos isenta de lutas e tribulações. Mas, pelo contrário, nos faz entender as tribulações e lutas com a perspectiva certa: a dor não é o ponto final, ela é a matéria-prima nas mãos do Deus que forja a eternidade no presente.
Foi Tiago quem disse:
Bem-aventurado o homem que suporta, com
perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa
da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam. (Tiago 1:12)
Diante de tudo o que vimos aqui, a pergunta a se fazer não é se estamos sofrendo, pois todos nós sofremos em alguma medida. A pergunta a ser feita é se estamos perseverando. Isso porque é a perseverança que transforma o sofrimento em testemunho, o teste em caráter e o presente em eternidade.

Ricardo Castro
Pastor, Escritor, Músico e Doutor em teologia
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