UM RETRATO DO VITIMISMO ATUAL: A AUTOBIOGRAFIA DE KLÉBER LUCAS
Quem me conhece sabe que, como leitor voraz, amo ser presenteado com livros. Recentemente, meus filhos me surpreenderam e, mesmo não sendo data comemorativa, me presentearam com diversos volumes. Entre os presentes estava a autobiografia do Kléber Lucas, intitulada “Deus cuida de mim”, lançada em 2024 pela editora Planeta. Logo de cara, estranhei que o volume não tivesse sido lançado por uma editora cristã.
Kléber Lucas foi um dos principais ícones da música cristã do fim dos anos 1990 e meados dos anos 2000, com milhares de CDs vendidos e muitas composições gravadas por nomes como Aline Barros, Fernanda Brum, Trazendo a Arca, Elaine Martins, Léa Mendonça, Nádia Santolli e Oficina G3. E até fora do arraial protestante suas músicas foram gravadas, como a música “Deus cuida de mim”, regravada pelo padre Fábio de Melo e pelo sambista Thiaguinho.
Lembro-me de que, quando ele lançou o álbum “Deus cuida de mim” em 1999, a banda da qual eu era o baterista passou a tocar três das músicas do álbum. E, depois disso, a cada lançamento que ele fazia, a banda incluía sempre suas músicas no repertório.
Por tudo isso, não podemos deixar de perceber que o Kléber era alguém de muita relevância em nosso meio. Entretanto, como o Senhor Jesus Cristo disse, não há nada encoberto que não seja revelado. Então, particularidades de sua vida começaram a surgir, o que o tornou protagonista de alguns escândalos.
Após um de seus divórcios, por ocasião do lançamento do álbum "Pra valer a pena" de 2003, as pessoas começaram a questionar como um músico cristão, com músicas que expressavam louvores supostamente inspirados, poderia ter uma vida afetiva tão conturbada. Porém, esse foi um dos menores escândalos nos quais o Kléber se envolveu.
Mas, retornando a falar do livro, decidi interromper a leitura de outra obra para ler o livro de Kleber Lucas, já que amo ler biografias.
Logo nos primeiros capítulos, o Kléber, como sempre fazem os biógrafos, começa a falar de sua infância e família. Mas percebi logo um certo esforço para passar uma imagem de vítima e a ênfase exagerada que ele dá à vida devassa de seu pai, que retrata como herói e com quem ele, o Kléber, tem grande semelhança. Isso deixou claro para mim que o autor estava se esforçando para justificar sua própria vida afetiva conturbada, já que seus divórcios foram alvo de ataques no passado.
Confesso que fiquei bastante interessado quando o autor fala de sua conversão ao cristianismo. Entretanto, antes fala da conversão de um primo, que se isolou da família por causa de sua adesão a uma igreja evangélica. O tom de fanatismo que ele dá ao fato já era uma prévia do que viria.
Mesmo que não cite o nome da banda, fiquei alegre quando Kléber fala de sua entrada no Ministério de Louvor Koinonya de Goiás.
O ministério Koinonya, que sou fã declarado, é um dos grandes nomes da música cristã brasileira e suas músicas são cantadas nas igrejas até hoje. Kléber fez parte da banda de 1988 a 1995 e, pelo que eu saiba, apenas a música "Jeová é o teu cavaleiro", de sua autoria, fez sucesso. Mas o Kléber diz abertamente que muitos dos hits da banda foram compostos por ele, mas seu nome foi excluído e que, sem citar nomes, diz que anos depois, o líder do ministério o procurou para pedir-lhe perdão por usurpar suas composições. Suponho que o autor se esqueceu de que o líder desse ministério é o exímio compositor Bené Gomes, cujas músicas como "Ao único", "Em espírito e em verdade", "Quem pode livrar". "Nossa Herança", "Tu Estás Assentado", "Flua, Senhor" e "Que Amor é Esse", são cantadas nos cultos até hoje.
Ele ainda diz que o motivo de sua saída da Koinonya em 1995 foi, entre outras coisas, a proposta de direcionar o ministério para o evangelho da prosperidade.
Em diversos pontos da obra, Kléber fala de suposto racismo sofrido por ele da parte do povo evangélico por causa de sua pele. Mas, novamente, ele é assolado por amnésia seletiva, quando se esquece de nomes como Adhemar de Campos, Mattos Nascimento, Álvaro Tito, Eliezer Rosa, Elaine Martins, Esteves Jacinto, Nívea Soares, Nilson Lins, Lázaro, Marquinhos Gomes, Jairo Bonfim, Thalles Roberto, Rose Nascimento, Fabiana Anastácio, dentre outros que, a despeito da cor de sua pele, despontaram como grandes nomes da música cristã.
Diante disso, chego à conclusão de que o Kléber Lucas fala de preconceito apenas porque ser vítima hoje em dia chama mais atenção do que o talento. E talento ele tem demais, mas foi ofuscado pelas polêmicas em que se envolveu.
Uma das coisas que o Kléber deixa bem claro desde as primeiras linhas é sua cosmovisão ecumênica. Essa postura, vinda de um pastor de uma igreja batista como ele, já é um escândalo para os cristãos ortodoxos, mas Kléber vai além e pinta a igreja evangélica com cores fortes. Na cosmovisão do Kléber, os evangélicos são fanáticos, ignorantes, separatistas, preconceituosos e corruptos. Mas, por outro lado, ele dá cores muito mais amenas às religiões de matriz africana, pintando-as como paladinos da generosidade, que agem sem nenhum interesse. Da forma como o autor coloca os adeptos dessas religiões, parece que os encara como anjos e que os verdadeiros demônios estão nas igrejas cristãs. Sua amnésia seletiva deixa de lado o fato de que, na base da doutrina espírita (de qualquer confissão das tantas que existem), as boas obras não são uma opção, mas sim requisito para uma boa reencarnação. Ao passo que para os cristãos protestantes, apesar de as boas obras também não serem opção (Efésios 2.10), elas não são requisito para a salvação, porque é concedida exclusivamente pela fé em Cristo (Efésios 2.8).
É intrigante o reconhecimento que ele dá aos babalawos, candomblecistas e acadêmicos que, segundo ele, o abraçaram carinhosamente após ter sido rejeitado pelos cruéis evangélicos. Mas foram justamente os evangélicos que o autor retrata como execráveis na sua biografia, que consumiam as suas músicas e seus shows, permitindo-lhe adquirir os bens móveis e imóveis, os quais são motivo de jactância no livro. Será que posso interpretar isso como uma cuspida no prato em que ele comeu?
E o relato do encontro com o ateu Caetano Veloso, que o convidou para um jantar e do qual surgiu a parceria de mais uma versão da música "Deus cuida de mim", dá a impressão de que ele tenha encontrado um deus da MPB. Uma postura um tanto incongruente para um pastor supostamente evangélico.
Mas até o penúltimo capítulo acreditei que o Kléber quis apenas passar uma imagem de vítima perfeita de um sistema religioso corrompido e cruel que quis lhe tolher a liberdade e que as religiões afro-brasileiras o salvaram.
Entretanto,, no último capítulo, as cortinas se abrem, sendo revelado que o livro tem um objetivo panfletário político.
É no último capítulo que a pessoa do atual Presidente da República é exaltada como aquele que fomenta a cultura e admira os evangélicos, enquanto que o governo anterior é rejeitado e zombado como "terrivelmente evangélico", mesmo o ex-presidente sendo católico. Dentre todas as polêmicas protagonizadas por Kléber Lucas, essa postura foi a que mais o "queimou" entre os cristãos. Cristãos que anteriormente lhe proporcionaram grande abundância. Abundância, porém, que chegou ao fim, já que ele, acostumado a tocar diante de grandes multidões, recentemente estava tocando em um barzinho músicas da Legião Urbana diante de uma plateia minguada e desinteressada. O filho pródigo continua querendo matar a fome com as bolotas dos porcos.
Fico a pensar se a postura liberal/ecumênica/esquerdista do Kléber Lucas lhe trouxe algum proveito, pois até a sua autobiografia está sendo vendida a R$ 12,20 com entrega grátis.
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