DEUS VALIDA A ESCRAVIDÃO?
Historicamente, a escravidão foi um dos crimes mais hediondos que os homens já cometeram. E, para os brasileiros, quando se fala em escravidão, a imagem que vem à mente é de homens sendo torturados e forçados a trabalhos forçados por causa da cor da sua pele. Os anos passam, mas a gravidade desses crimes não arrefece.
E, como a escravidão foi praticada em todas as nações do mundo é sábio perguntar o que a Bíblia fala a este respeito.
Talvez o que vou escrever aqui possa chocar alguns. Mas, por outro lado, sei que esclarecerá a dúvida de muitos outros. E, enquanto teólogo, não posso olvidar o fato de que a Bíblia trata desse assunto, sim, mas não como muita gente pensa. E, devido à maneira como os Escritos Sagrados abordam o assunto, pessoas que não se aprofundam adequadamente no estudo bíblico acabam interpretando errado o Livro Sagrado. E meu objetivo nas linhas que seguem é exatamente dirimir as dúvidas.
Na Bíblia, existe um texto em especial que é alvo de má interpretação no que tange à escravidão.
Mas, quando o sacerdote comprar alguma alma com o seu dinheiro, aquela comerá delas e o nascido na sua casa; estes comerão do seu pão.
(Levítico 22:11 | ARC)
Lendo superficialmente, as pessoas realmente podem interpretar que Deus está validando a escravidão. Mas, quando estudamos o texto com cuidado, descobrimos que a realidade histórica e textual é mais complexa .
E, apesar de meu objetivo ser o de eliminar dúvidas, garanto a você que não serei reducionista e não ajustarei a situação para defender as Escrituras. Serei o mais sincero que puder ser.
A primeira reflexão a que devemos chegar é que, como nossa mente está impregnada do conceito ocidental da escravidão, que é brutal, pensamos que a escravidão no Oriente era do mesmo jeito. De certa forma, em alguns povos do Oriente, a escravidão se assemelhava à prática brutal do Ocidente. Mas em Israel não era assim. Entre os ocidentais, geralmente a escravidão era fruto de um ataque de uma nação mais avançada sobre outra menos avançada e mal equipada. Mas em Israel, havia formas diversas de como uma pessoa chegava à condição de escravo. Uma delas era a pobreza. Às vezes as pessoas chegavam a um nível tão precário que, para sobreviver, se entregavam à escravidão. E isso também se estendia a outros povos. Podemos ter um vislumbre disso no fato de que os egípcios entregaram-se à escravidão ao Faraó para poderem sobreviver. (Gênesis 47.13-26).
Outra forma de se chegar à escravidão era devido ao endividamento. Em 2ª Reis 4.1, vemos uma mulher que, após a morte de seu esposo, estava para entregar os filhos e ela mesma aos credores.
As pessoas também se tornavam escravos por meio da guerra, quando um exército era vencido por outro. (Números 31.9, Deuteronômio 20.10-14, 2ª Crônicas 28.8).
Mas, em todos esses casos, a escravidão não implicava em tortura e trabalhos forçados. Mas isso não elimina o fato de que o texto de Levítico citado acima fala da realidade de que havia escravos em Israel, e que, inclusive, os sacerdotes poderiam tê-los. Então isso quer dizer que Deus estava validando a escravidão?
Para responder a esta pergunta, devemos ter o discernimento da diferença entre a validação e a regulamentação.
Com isso em mente, devemos perceber que em lugar algum nas Escrituras Deus valida a escravidão e em lugar algum encontramos que Deus tenha dito que a escravidão era um ideal ético. Nos textos nos quais a Bíblia aborda a escravidão, Deus está regulando justamente uma prática já existente. Ou seja, a escravidão já era uma prática muito difundida entre os povos orientais e não seria diferente com Israel. Então, Deus está regulando a prática da escravidão sem, contudo, validá-la.
Alguns podem objetar que Deus poderia ter estipulado uma ordem para a eliminação dessa prática. Entretanto, devemos perceber que o primeiro dos dez mandamentos é uma proibição da idolatria. E todos sabemos que, mesmo diante dessa ordem, cuja transgressão era punível por lei, historicamente, os judeus se tornaram idólatras em diversos momentos. Assim, tendo em vista que, mesmo que houvesse uma proibição direta, os judeus a perpetuariam, seguindo o exemplo dos povos vizinhos. Então Deus preferiu regular essa prática para que não houvesse excessos. E, por causa disso, Deus preferiu regular essa prática para que não houvesse excessos.
Frequentemente a Bíblia legisla práticas sem validá-las. É o caso de Mateus 19.8, em que Jesus afirmou que Deus permitiu o divórcio não porque era um ideal de vida, mas por causa da dureza de coração dos homens. Mas, disse o Mestre, isso não correspondia ao plano original da criação. Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado à prática da escravidão. A lei estava regulando, limitando e, em certos casos, restringindo esta prática sem, contudo, eliminá-la de vez. Porém, isso não implica que esta prática era um bom ideal para os homens. Pelo contrário, sendo a Bíblia verdadeira e lidando com realidades, ela trabalha dentro de uma sociedade concreta que era marcada pela desigualdade, pobreza, guerras e dependência econômica.
Mas o que a lei restringia? De que forma eram tratados os escravos?
Em primeiro lugar, os israelitas que se entregavam à escravidão devido à pobreza não deveriam ser tratados como escravos, mas sim como trabalhadores assalariados (Levítico 25.39-40; 25.53,54; Deuteronômio 15.12-15).
Além disso, um servo hebreu não poderia permanecer na condição de escravidão para sempre (Êxodo 21.2, Levítico 25.39-41, Deuteronômio 15.12).
Essas restrições eram muito importantes em comparação com as outras sociedades da época, que eram muitas vezes impiedosas com os escravos e desvalidos.
Outra reflexão que devemos fazer é quanto ao tratamento dos escravos.
Os opositores dirão que não podemos negar que mesmo os sacerdotes, que deveriam ser grandes guardiões da moralidade, em Levítico 22.11, recebem a autorização para possuir escravos. E isso é prova de que Deus valida a escravidão.
Antes de tudo, Levítico 22.11 não é uma permissão. Como disse antes, é uma regulamentação. E, ao contrário de ser uma prova de que a Bíblia é injusta, é uma prova de que Deus estava estipulando uma forma mais “humana” para lidar com uma prática tão antiga quanto a humanidade, como era a escravidão.
O texto de Levítico 22.11 está regulamentando quem podia comer das porções dos sacrifícios destinados aos sacerdotes. É importante notar que o estrangeiro, o hóspede e o trabalhador contratado não podiam comer das ofertas sagradas. Inclusive, quem comesse indevidamente teria que restituir o valor acrescido de 20% (Levítico 22.14). É interessante notar que os que poderiam comer das ofertas eram os próprios sacerdotes, sua família e, pasmem, seus servos. Assim, aos escravos estava destinada a mesma comida dos sacerdotes e sua família. Por esse fato, já podemos deduzir que os escravos não eram maltratados, mas, pelo contrário, eram tratados com certa dignidade.
Quando os sacerdotes compraram pessoas, eles tinham que incorporá-los ao seu grupo doméstico. De fato, o escravo não era tratado como um empregado contratado, mas era tratado com dignidade. Além disso, gozava de certas regalias que nem mesmo o empregado contratado tinha, embora este gozasse de liberdade .
Em resumo, algumas pessoas leem o texto e acusam a Bíblia de ser escravista e, com isso, acusam Deus de ser carrasco. Mas, como vimos, a Bíblia não valida a prática da escravidão nem a apresenta como um ideal para a humanidade. Mas ela toma uma prática arraigada em uma cultura arcaica, regulamenta e restringe para que, mesmo que não seja eliminada, se torne algo mais palatável.
Louvado seja Deus por sua misericórdia.
Bibliografia:
LIVROS:
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FINLEY, Moses I. O escravismo antigo. Lisboa: Edições 70, 1984.
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REVISTAS ACADÊMICAS E ARTIGOS CIENTÍFICOS:
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VERGNE, Maria Cleonice de Souza; ROCHA, Julio César de Sá da. A escravidão: passado e presente. Opará: Etnicidades, Movimentos Sociais e Educação, Paulo Afonso, v. 9, n. 14, e142004, 2021. Disponível em: https://revistas.uneb.br/opara/article/download/13676/9555/40052. Acesso em: 13 mar. 2026.
SITES E BLOGS:
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GUSSO, Antônio Carlos. Trabalho e escravidão no judaísmo bíblico. Revista Maaravi, Belo Horizonte (UFMG), v. 7, n. 12, 2013. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/maaravi/article/view/13942/11123. Acesso em: 13 mar. 2026.
VÍDEOS E PODCASTS (MÍDIA AUDIOVISUAL)
CORREA, João. A Escravidão na Bíblia. Canal Historiador João Correa, 25 nov. 2024. 1 vídeo (8 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OPPPNiWxkR4. Acesso em: 13 mar. 2026.

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Ótimo texto, pastor! Ele nos leva a refletir sobre o anacronismo e sobre a importância de compreender cada realidade dentro do seu próprio contexto histórico e cultural, sem projetarmos automaticamente sobre o mundo bíblico as categorias e experiências da escravidão ocidental moderna.
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