O FRUTO DO CONHECIMENTO DE DEUS

 



O FRUTO DO CONHECIMENTO DE DEUS


Uma crise moral imensa. As pessoas não têm mais pudor e fazem o que seu ventre manda. A lei é deturpada, e o criminoso torna-se herói enquanto o homem de bem é reprimido. Homens gananciosos dirigem a nação com vistas apenas ao benefício próprio. A desigualdade social é tão intensa que oportunidades e privilégios não chegam à casa dos desvalidos.


E a crise não se restringe apenas ao âmbito social. Também há uma crise espiritual. Os líderes religiosos tornaram-se corruptos e fazem no oculto o que condenam em público. E o povo, por sua vez, cai no esfriamento espiritual e torna-se idólatra. Porém, incrivelmente continuam adorando a Deus, mas também cultuam outros deuses. E dessa forma, a crise torna-se total.


À primeira vista, parece que estou falando de nossos dias. Mas não. Estou falando do contexto do livro do profeta Oséias. É impressionante como ambos os contextos são semelhantes.


A crise era imensa e o povo estava vivendo uma vida dupla, adorando a Deus, mas também adoravam os deuses falsos.


É nesse contexto que Oséias é chamado por Deus para profetizar. Porém, seu ministério foi bem diferente do ministério dos outros profetas, pois ele foi chamado a profetizar não apenas com palavras, mas também com a própria vida. Deus ordena que ele tome como esposa uma mulher adúltera chamada Gômer.


Sei que isso parece uma coisa terrível. Mas terrível também era o que o povo estava fazendo, querendo adorar a Deus tanto quanto aos deuses falsos. Portanto, o relacionamento incomum do profeta serviu como uma parábola viva para mostrar a indignação de Deus. O livro do profeta Oséias revela a tristeza e a repulsa de Deus a infidelidade do povo.


Gômer, além de se envolver com outros homens, também abandonou Oséias e seus filhos algumas vezes para entregar-se às relações ilícitas, ignorando totalmente os votos matrimoniais (Oséias 2:5). Além disso, ela também se entregou ao culto a deuses estrangeiros (Oséias 2:8).


Entretanto, não podemos esquecer que essa parábola viva também revelou o amor incondicional de Deus pelo seu povo e o desejo de restaurá-lo.


Em primeiro lugar, o fato de Oséias ter comprado sua mulher, depois que ela se vendeu a seus amantes, revela o desejo de Deus de resgatar o seu povo (Oséias 3:2).


Em segundo lugar, Oséias ter conseguido convencer sua mulher a voltar para casa, demonstra o amor e o cuidado de Deus (Oséias 3:3).


Houve um momento que, para que Gômer não caísse mais em adultério, Oséias restringi a sua liberdade (Oséias 2:6). E a quantidade de vezes que ele persistiu em buscar sua esposa nos braços de seus amantes, mostra o quanto Deus queria seu povo de volta.


Entretanto, a despeito de todo o empenho de Deus em resgatar e restaurar o seu povo, eles ainda permaneciam infiéis.


E foi por esse motivo que Deus teve que tomar algumas medidas enérgicas.


Vinde, e tornemos ao SENHOR, porque ele despedaçou, e nos sarará; feriu, e nos atará a ferida. Depois de dois dias nos dará a vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele. Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra (Oséias 6:1-3).


De que forma Deus “despedaçou” Israel?


Em primeiro lugar, Deus cerrou os céus para que não houvesse chuvas, bem como permitiu que pragas infestassem as plantações. E isso causou uma crise de proporções imensas, pois a produção de alimento caiu consideravelmente. E como resultado, veio a fome.


Além disso, Deus permitiu que algumas nações, principalmente os Assírios, invadissem o território de Israel.


Somado a tudo isso, ainda havia os líderes corruptos, capitaneados por Jeroboão II, que pervertiam o juízo e causavam as catástrofes sociais, divisões internas e injustiças. Tudo isso trouxe o declínio do reino de Israel.


Mas, a pior das catástrofes foi a perda da presença de Deus.


Podemos entender que todas essas coisas eram como um megafone de Deus anunciando a infidelidade do povo e conclamando-o ao arrependimento. Notemos que o profeta diz “Vinde, e tornemos ao SENHOR” (Verso 1) e “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor” (Verso 3).


O castigo do povo não tinha o objetivo apenas de puni-lo, mas, sobretudo, tinha o propósito mais elevado de fazer o povo reconhecer os seus erros e voltar para o Senhor.


Meus amados, quantas vezes acontece o mesmo conosco? Isto é, deixamos que a frieza e a corrupção nos influenciem a tal ponto que nos afastamos de Deus. Quantas vezes as iniquidades dos outros esfriam nosso amor? (Mateus 24:12).


Por causa disso, assim como Deus fez com seu povo Israel, Ele também permite que entremos em crise. Ou seja, ele também nos despedaça, mas nos sarará. Isso porque Ele está nos conclamando ao arrependimento.


Entretanto, uma coisa muito interessante aconteceu com Israel. Eles anuíram ao chamado ao arrependimento. Porém, essa experiência tornou-se muito superficial. Oséias 6:4-5 explica isso:


Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa. Por isso os abati pelos profetas; pelas palavras da minha boca os matei; e os teus juízos sairão como a luz.


Esse texto demonstra que o arrependimento de Israel foi apenas momentâneo. Era como a neblina matinal que, da mesma forma rápida que surge, também desaparece. Era uma devoção efêmera que surgia apenas quando as coisas apertavam muito. Mas, quando as coisas melhoravam um pouco, logo se dissipava. Esse arrependimento pró-forma nunca poderia fazer qualquer diferença naquela situação. E também não faz qualquer diferença na nossa situação. Isso porque, com certa frequência, acontece a mesma coisa conosco. Quando estamos em aperto, certamente buscamos ao Senhor, corremos para a igreja para participar dos cultos de oração. Entretanto, basta apenas um pouco de alívio para que a nossa “devoção” se mostre transitória como a neblina matinal.


Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim (Mateus 15:8).


Contudo, não é do interesse de Deus que essa situação se perpetue. Ele não quer deixar-nos. E é por isso que Ele nos chama ao arrependimento.


Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos (OSÉIAS 6:6)


Isso nos mostra que o Senhor quer ter uma relação íntima conosco, ao invés de cumprimento de rituais mortos. Por causa disso, não basta participar dos cultos dominicais, seguir as práticas da igreja e entregar os dízimos, se nosso coração não estiver sinceramente dedicado a Ele, livre de pecado e genuinamente rendido à Sua vontade.


Porém, não estou tentando desmerecer o valor dessas práticas, pois são de grande importância. No entanto, elas devem ser acompanhadas de um coração quebrantado e completamente entregue ao Senhor, pois Ele valoriza não apenas nossas ações visíveis, mas também a devoção interior e a entrega sincera.


Então, o Senhor nos convida a conhecer e obedecer a sua vontade. Por isso, estamos sendo desafiados a reexaminar nossas atitudes em relação ao arrependimento e a busca por Deus. Também estamos sendo desafiados a abandonar a superficialidade de nossa devoção frívola e entregar-nos totalmente a Ele. Sobretudo, Deus nos desafia não apenas a conhecê-lo, mas a avançar nesse conhecimento.


Estamos enfrentando um tempo de crise como nos tempos de Oséias. Isso porque a infidelidade de Israel reflete a nossa infidelidade. Somos a Gômer dos dias de hoje.


Muitas vezes Deus nos tem quebrantado para que reconheçamos nossos erros e voltemos para Ele, pois Ele não quer um relacionamento superficial como uma “nuvem da Manhã”.


Dessa forma, que conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor. O fruto desse conhecimento de Deus é sempre salutar, não apenas para nós, mas para todos os que nos cercam. Quando abandonamos o relacionamento superficial com Deus, antes de tudo, passamos a desfrutar das benesses desse relacionamento. As coisas começam a dar certo.


A sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra (Oséias 6:3).


Mas também passamos a ser instrumentos do próprio Deus para abençoar as pessoas a nosso redor, e isso não tem preço.


Que conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor!

Ricardo Castro

Pastor, Escritor, Músico e Doutor em teologia

 

 
 

 

 
 

 

 
 

Ricardo Castro

Pastor, Escritor, Músico e Doutor em Teologia


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