POR QUE NOS ESCONDEMOS DE DEUS?

 



POR QUE NOS ESCONDEMOS DE DEUS?

Gênesis 3:8-10

Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim.

E chamou o Senhor Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás?

Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi.



Quando meus filhos eram crianças, costumávamos brincar de esconde-esconde. Às vezes passava semanas rindo de como eles achavam lugares inusitados para se esconder. Mas, um dia por não acharem lugares adequados, ambos ficaram num canto da sala com os olhos fechados. Na sua inocência, eles acreditavam que se não me vissem, eu também não os veria. Ainda hoje me pego rindo quando lembro disso.

Será que isso não é a mesma coisa que tentamos fazer com Deus? Assim como meus filhos, achamos que se tirarmos Deus do nosso campo de visão, nos esconderemos dele. Ledo engano.

Adão e Eva fizeram algo assim. Antes de sua escolha, eles tinham comunhão total com o Deus Criador, que vinha à terra para conversar com eles. Não sabemos por quanto tempo essa realidade permaneceu. Mas sabemos que, por causa da desobediência do casal, o homem perdeu esse privilégio e passou a se esconder de Deus.

E essa história se repete todos os dias, pois como nossos primeiros pais, decidimos dar um “grito de independência” do nosso Criador quando nos entregamos ao pecado. E assim como eles, nos escondemos por medo das duras consequências de nossa escolha.

Certa vez, uma jovem me perguntou por que Adão e sua mulher se esconderam, se textos como o de Isaías 55.7 nos diz que o Senhor é rico em perdoar. O que segue foi inspirado na resposta que lhe dei na ocasião.

Adão e Eva se esconderam, em primeiro lugar, porque estavam com vergonha.

É interessante notar que aquilo que era belo e perfeito, depois da ação nefasta do pecado, tornou-se causa vergonha. Existem muitas outras coisas boas que Deus criou e que o diabo distorceu, tornando causa de vergonha.

Mas por que temos vergonha? Porque Deus é Santo e nós, pecadores. Simples assim.

Na condição de pecadores, não podemos permanecer na Presença dele, por isso nos escondemos. Vemos claramente isso quando o profeta Isaías viu a Glória de Deus, e disse: “Ai de mim porque vou morrer por ter visto a Deus”. (Isaías 6).

Ainda que o pecado seja uma coisa prazerosa para a natureza caída, sempre causará a separação entre nós e Deus (Isaías 59.2). E sua consequência sempre será a morte (Romanos 6.23).

Como disse antes, o pecado traz algum prazer. Porém este é fugaz, e a vergonha é sempre maior que ele.

Essa questão do pecado é muito interessante. O diabo irá nos tentar através de algo apetitoso para a carne. E a carne, por sua vez, irá nos seduzir de tal forma que, se cedermos ao seu encanto, estaremos presos em suas teias (Tiago 1.14,15). Mas, depois de conseguir nos emaranhar nas teias do pecado, a carne nos culpará e o diabo nos acusará. Veja que ironia! Fomos tentados pelo diabo e seduzidos pelos desejos da carne, e serão eles mesmos que irão nos acusar e culpar. E uma das piores consequências do pecado, excetuando a separação de Deus, é a culpa. Há pessoas que enlouquecem por não saberem lidar com ela.

Por outro lado, quando alguém comete pecado e não sente mais nenhum nível de culpa ou vergonha, isso indica que tal pessoa já está totalmente dominada pelo pecado. E nesses casos, o processo de retorno à presença de Deus é sempre muito doloroso.

E o segundo motivo por que Adão e Eva se esconderam foi o medo. Ao pecarem, eles tiveram medo das consequências da desobediência da ordem direta que Deus havia dado. O medo é realmente um dos frutos do pecado. As pessoas se escondem de Deus por medo dele, porque sabem que seus pecados o ofendem.

Mas, passemos a meditar um pouco sobre isso.

Bem, antes de pecarem, o casal estava totalmente nu, não se envergonhavam e não tinham motivo para ter medo de Deus. E o Senhor os visitava na viração do dia. Isso nos dá um panorama do que era a comunicação entre Deus e os homens naquele tempo.

Entretanto, o pecado mudou tudo. Depois que o casal deliberadamente decidiu desobedecer, a vergonha, a culpa e o medo imperaram e a comunhão com o Criador ficou abalada. Isso é peculiar ao pecado. Ele é antagônico à Santidade de Deus e nos leva a ver aquilo de bom que Deus criou como sendo uma coisa má.

E a pior coisa a respeito do pecado é que ele nunca vem sozinho. Sempre existe uma gama de outros pecados que vêm atrelados ao pecado que cometemos. Foi exatamente isso que o salmista falou no Salmo 42.7, quando disse “Um abismo chama outro abismo”. Isso porque quando pecamos, geralmente inventamos uma mentira para encobrir o pecado. E, invariavelmente, inventamos outras mentiras para ratificar a primeira e etc.

Outro exemplo de como o pecado não vem sozinho é que a cobiça sempre traz em sua esteira muitos outros pecados como o roubo ou o adultério. E na grande maioria das vezes as pessoas pecam porque culpam as outras com o objetivo de encobrir os seus pecados. Foi exatamente isso que aconteceu quando Deus inquiriu Adão sobre o que ele havia feito, e este culpou a Deus dizendo “foi a mulher que TU ME DESTE”. E também tentou se eximir de culpa, jogando-a inteiramente nas costas de Eva. E esta, por sua vez, culpou a serpente, tentando encobrir o fato de que foi ela mesma quem tomou a fruta e deu a seu esposo.

E assim, as pessoas estão emaranhadas em uma intrincada teia de pecados que os aprisiona. E essa foi a experiência do salmista quando, no salmo 42 ele diz que como uma cachoeira, as águas do engano se abateram contra ele. Todo esse turbilhão de pecados só poderia gerar o medo de Deus.

Nós nos escondemos porque achamos que estando escondidos, não sofreremos as consequências do pecado, coisa que é totalmente impossível porque todo pecado tem a sua punição.

Outro motivo que levou Adão e Eva a se esconderem de Deus foi que eles desconfiaram de seu amor. Isto é, eles acharam que por terem pecado, Deus os odiaria.

Bom, só posso supor que eles, de fato, não conheciam quem é Deus, apesar de vê-lo pessoalmente todos os dias. O pecado tem o poder de fazer com que façamos uma caricatura de Deus, esquecendo de quem ele realmente é.

É claro que se voluntariamente vivermos na prática do pecado, só resta para nós a condenação. Porém, quando realmente sabemos quem Deus é, temos a certeza de que, se pecarmos e nos arrependermos genuinamente, encontraremos seu perdão.

Portanto, que temamos as consequências que nossos pecados trarão, mas não tenhamos medo de Deus e nem desconfiemos de seu amor para conosco.

Mas, como Deus tratou o pecado de Adão e Eva?

Em primeiro lugar, Deus foi em busca deles, ao contrário do que o casal pensava de que Ele os odiaria e os abandonaria.

E chamou o Senhor Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás? (Gênesis 3.9)

É Deus quem sempre toma a iniciativa para nos salvar. Isso porque estamos mortos no pecado, e um morto nada pode fazer. E é por esse motivo que devemos louvar ao Senhor por ele sempre tomar a iniciativa em relação a nossa salvação.

Em segundo lugar, Deus os confrontou com o seu pecado.

Perguntou-lhe Deus: Quem te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses? (Gênesis 3.11)

Deus faz com que, antes de tudo, reconheçamos o nosso erro. Pois, enquanto não reconhecermos que o pecado nos infectou, viveremos em nossa empáfia, achando que somos puros.

Antes de começar o tratamento com um alcoólatra, os alcoólicos anônimos fazem com que ele reconheça o seu problema. Isso porque, se ele não reconhecer, nunca terá noção da enormidade do seu problema e não buscará tratamento. E assim também acontece conosco. Deus nos faz reconhecer que somos pecadores e necessitamos de salvação.

Em terceiro lugar, Deus tratou o pecado de Adão e Eva os punindo. A mulher recebeu a sentença de que teria seus filhos com dores. Ao homem Deus sentenciou que ele conseguiria seu sustento apenas por meio de muito esforço e que esse trabalho não seria nada fácil. (Gênesis 3.16-19).

Mas, não pensemos que essas sentenças tenham sido uma atitude revanchista de Deus. Pelo contrário, foi uma atitude amorosa. Se Deus tivesse perdoado o casal sem tê-los punido, certamente eles não aprenderiam a lição.

Para explicar isso, tomarei novamente meus filhos como exemplo. Até hoje quando eles erram, além de levarem um sermão de horas, detalhando exatamente onde erraram, eles sofrem as consequências. Quando eram crianças, apanhavam. Quando adolescentes, ficavam de castigo. Hoje, recebem formas de punição mais adultas. E fazer isso, para mim, nunca foi fácil, porque não quero vê-los tristes. Mas, porque os amo, tenho que puni-los para que entendam o tamanho do problema que causaram, e para que aprendam a lição, não cometendo os mesmos erros.

Um pai displicente deixa seus filhos à própria sorte. Um pai amoroso os disciplina. E é mesmo assim que Deus faz conosco. E por isso, quando estivermos sendo disciplinados pelo Senhor, devemos louvá-lo pelo seu cuidado em tratar do nosso pecado.

Por fim, Deus tratou do pecado deles providenciando uma pele de animal para cobrir a vergonha deles (Gênesis 3.21).

Antes, o casal tinha feito uma veste de folha de Palmeira. Mas esse arranjo deveria ser renovado diariamente, pois uma folha cortada de seu galho, logo murcha. Ou seja, o que eles fizeram era uma provisão paliativa e, de certa forma, inútil. Mas o Senhor sacrificou um animal para resolver o problema de maneira permanente. E isso era um prenúncio do sacrifício de Jesus para pagar o preço dos nossos pecados, para que não tenhamos mais que nos esconder.

Para concluir, devo dizer que tentar se esconder de Deus é pura bobagem, pois tudo está patente a seus olhos (Hebreus 4:13). Podemos esconder nossos pecados de outros homens, mas nunca de Deus.

E é bem certo que, quando tentamos esconder os nossos pecados, nunca conseguiremos progredir. Observe as palavras do sábio rei Salomão:

O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia (Provérbios 28.13).

Não precisamos nos esconder, pois temos um Deus amoroso que como um bom pai, virá ao nosso encontro com seus braços dadivosos abertos, mas nos corrigirá à altura que necessitamos para que não repitamos os mesmos erros. Por isso, que deixemos o pecado pela ação perdoadora de Deus e que vivamos para agradá-lo.
Ricardo Castro
Pastor, Escritor, Músico e Doutor em Teologia

Comentários

  1. Boa tarde Pr. Ricardo!!
    Muito bom esta visão, quando erramos com o Pai corremos "dele" enquanto deveriamos correr pra Ele.
    Somos ensinado desde criança que a correção é uma forma de punição enquanto na verdade é uma oportunidade de restauração.
    Exemplo: Quando cometemos crimes sociais e a justiça julga dando um veredito entendemos como uma destruição e não como uma oportunidade de recomeçar.

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