O CÁLICE E A ESPADA

 



Era alta madrugada. Jesus estava orando há horas. Ele orava com tanta intensidade que de seus poros saía sangue em lugar de suor. Súbito, surge uma horda. Soldados do templo armados até os dentes. O Mestre se põe de pé e vai até eles. Judas, um dos discípulos, sai de entre a turba e beija a face de Jesus. Os guardas se precipitam sobre o Galileu. O amarram com truculência e, nessa ação, desferem socos. Naquela noite, dois caminhos se revelam: a fuga ou uma atitude enérgica.

Faço uma pergunta e espero que você responda com sinceridade: se você fosse um dos discípulos, o que faria? Você correria como a maioria deles, ou tentaria defender Jesus?

Essa é uma resposta difícil. Contudo, tenho certeza de que a primeira coisa que você pensou foi em defender Jesus. E foi exatamente o que Pedro fez:

E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, sacou da espada e, golpeando o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe a orelha. Então, Jesus lhe disse: Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão. Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder? (Mateus 26:51-54)

Talvez você se pergunte: “Ora, ainda que Pedro tenha se utilizado da espada, ele agiu por fidelidade. Então por que Jesus o criticou?”

O Getsêmani é muito mais do que um jardim. Neste episódio, ele se torna o palco de uma das crises existenciais mais profundas diante do sofrimento iminente. Naquela noite no jardim, a fé e a lealdade dos discípulos foram postas à prova.

Talvez critiquemos os que fugiram. Mas, pergunto novamente: o que você faria se estivesse ali? Jesus foi traído e preso, e você não tinha uma espada como Pedro. Você arriscaria ir para a prisão também?

Ou talvez, você aplauda a Pedro que, diferente dos outros, fez alguma coisa para resolver a questão. E é justamente aí onde está todo o problema, o qual é o objeto de minha análise nas linhas abaixo.

Em meio às crises, geralmente reagimos de duas formas: fugimos ou tentamos controlar o que não pode ser controlado.

Pedro, o sanguíneo impetuoso, optou por usar a espada e tornou-se o representante daqueles que têm a reação primária de, diante da ameaça, sacar a espada.

É importante notar que Jesus não estava repreendendo Pedro por ele ter sido leal. A coragem, por si só, nunca é um problema. O equivoco estava na forma como ele entendeu a situação. Pedro acreditava que Jesus deveria ser defendido por meios humanos e imediatos, sem levar em conta os propósitos de Deus. Ele confundiu fidelidade com compulsividade, zelo com falta de discernimento espiritual.

Quando seu status quo ou sua vida são ameaçados, qual é a sua primeira reação? Você opta pela espada da defesa ou se resigna com o cálice da vontade do Pai?

 

A SOLUÇÃO HUMANA

 

E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, sacou da espada e, golpeando o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe a orelha. (Mateus 26:51)

Como disse anteriormente, o impulsivo Pedro optou por usar a espada. E esse é um dos fatos inexplicáveis da Bíblia. Como Jesus pôde permitir que um de seus discípulos mais chegados andasse armado? Sinceramente, não sei explicar. Mas a realidade era que Pedro carregava uma espada.

A espada de Pedro representa a solução humana, que muitas vezes achamos ser a saída para os problemas da vida. Mas acontece que as soluções humanas são sempre imediatas, muitas vezes agressivas e geralmente baseadas no medo.

A atitude de Pedro, com certeza impensada, expressava o seu medo. Quando nos sentimos acuados, seja física ou emocionalmente, costumamos ter atitudes das quais nos arrependemos depois. Muitas vezes reagimos com agressividade porque tememos perder o status quo ou mesmo a própria vida. Mas isso não quer dizer que seja a melhor atitude a se tomar, porque a agressividade é a defesa de quem se sente impotente.

Muitas pessoas tentam esconder a sua impotência atrás da máscara da agressividade. Pedro é uma dessas pessoas. Sua atitude de ferir com a espada apenas revelou sua incapacidade de lidar com a incerteza e o sofrimento. E mais uma vez fica claro que as soluções humanas, via de regra, são destrutivas. Pedro não apenas fere Malco, o servo do sumo sacerdote, mas metaforicamente se coloca em oposição aos planos de Deus.

Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder? (Mateus 26:54).

Vemos que, ao tentar livrar Jesus, Pedro estava entrando em conflito com a vontade de Deus. E Jesus o repreende, citando uma lei universal:

Então, Jesus lhe disse: Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão. (Mateus 26:52).

Com isso, Jesus estava alertando que violência apenas gera mais violência. E todas as outras soluções humanas também terão o mesmo resultado.

A agressividade é somente um ciclo vicioso que nunca resolve o problema, mas pelo contrário, apenas o perpetua.

Quantas vezes, em meio às nossas crises pessoais, sacamos a espada da raiva, do ressentimento, da fofoca, da manipulação, da vingança?

Às vezes, as espadas que sacamos não são apenas emocionais, mas também espirituais. Sacamos essa espada quando tentamos controlar as pessoas em nome de Deus. Quando usamos a Bíblia como instrumento de opressão, manipulando-a como nos convém. Quando usamos os jargões evangélicos para impor a nossa vontade. Muitas feridas que as pessoas carregam não vem do mundo, mas de espadas empunhadas por pessoas que se dizem defensores do Reino de Deus.

Tenhamos a certeza de que todas essas soluções humanas imediatas sempre resultarão em “orelhas cortadas”. E esse é um dano colateral desnecessário que compromete a paz e a justiça.

 

A CEGUEIRA DO PLANO

Como disse antes, Pedro errou por estar andando armado. Contudo, esse não foi o seu pior erro. Seu maior erro estava na cegueira quanto aos propósitos de Deus. Pedro apenas viu o que estava à sua frente: pessoas querendo fazer mal ao seu grande amigo. Mas ignorava os propósitos de Deus que incluíam a Cruz, a Ressurreição e a Redenção. Ou seja, sua ação agressiva, ainda que por motivos de fidelidade, estava totalmente desprovida da visão mais ampla do plano de Deus.

Em todos os momentos, quando estamos diante de uma situação do tipo “lute ou fuja”, devemos ter em mente que a liberdade humana é limitada pelo contexto em que estamos inseridos e por nossos limites.

É interessante notar que, por ignorância, Pedro quis resolver o problema impondo a sua vontade (finita e falha) sobre a vontade de Deus (infinita e inerrante). Mas o Mestre lembra a Pedro quem Ele era ao dizer que poderia, se quisesse, convocar mais de doze legiões de anjos (Mateus 26:53). Isso mostra que Jesus estava sujeito àquela situação não compulsivamente, mas voluntariamente, para cumprir um plano eterno.

Às vezes, como Pedro, achamos que o Senhor está sendo passivo demais, demorado demais, inerte. Mas a aparente letargia de Deus não é falta de poder, mas a escolha deliberada de um caminho mais elevado.

Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos. (Isaías 55:9).

Podemos dizer que Pedro, por meio da espada, queria estabelecer o Reino de Deus a seu modo. Isso me faz lembrar que foi a mesma coisa que fez Moisés (que quis libertar o povo matando um egípcio) e Abraão (que possuiu a sua serva para ter um filho). E nada de bom provém quando usarmos armas humanas para estabelecer o Reino de Deus.

Jesus, por outro lado, estava ali estabelecendo o Reino de Deus pelo caminho do esvaziamento e do sacrifício (Filipenses 2:5-8).

 

A SOLUÇÃO DIVINA

É revelador o relato feito pelo apóstolo João:

Mas Jesus disse a Pedro: Mete a espada na bainha; não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu? (João 18:11).

Pedro viu um inimigo em Malco. Mas Jesus viu um cálice. Diante daquela situação dolorosa, Jesus aponta o cálice como antítese da espada. O Cálice representa a solução de Deus que é sempre certa, soberana e, sobretudo, redentora. O cálice faz referência à vontade do Pai, que era o sofrimento que culminaria na redenção.

Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. (Isaías 53:10).

O sofrimento de Jesus não foi um acidente, mas sim um propósito. Podemos confiar que as soluções de Deus são certeiras por serem fundamentadas em um propósito eterno e perfeito.

Depois de Pedro ter cometido o erro de cortar a orelha de Malco, Jesus intervém com  a solução. Lucas registra o fato:

Perguntaram: Senhor, feriremos à espada? Um deles feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha direita. Mas Jesus acudiu, dizendo: Deixai, basta. E, tocando-lhe a orelha, o curou.  (Lucas 22:50,51).

E isto diz muito para nós. A solução humana, representada pela espada de Pedro, fere, subtrai, machuca, mutila, provoca dor. Mas a ação de Deus, representada pelo toque de Jesus, cura, restaura, restitui, elimina a dor. Onde a agressividade destrói, o amor de Deus restaura. E assim entendemos que o caminho do verdadeiro evangelho implica que troquemos as espadas pelo cálice do Senhor.

Alguns pensam que usar a espada é sinal de força. Porém, o Senhor Jesus nos mostra que a força está na submissão voluntária à vontade de Deus, mesmo que ela pareça ilógica e seja, de certa forma, dolorosa.

Contudo, é importante esclarecer que quando falo em “beber o cálice” não estou sugerindo que devemos ser passivos e nos conformar com as injustiças.

Jesus não estava aceitando aquela situação por passividade, mas por submissão aos planos do Pai. O cálice não é covardia, é confiança. Também não é inércia, mas submissão consciente a um propósito maior. Deus não nos chama para reagir com violência. Antes, nos chama para responder com firmeza, mansidão e fé, deixando claro que estar em silêncio não é ser derrotado.  E também, nem todas as vezes que se reage impulsivamente, somos corajosos.

Hoje em dia, as pessoas costumam defender bandeiras, sejam políticas, religiosas ou sociológicas. Por isso, é comum vermos nas redes sociais combates homéricos, travados para defender posições. É costume as pessoas hoje sacarem suas espadas digitais e desferi-las contra os supostos inimigos. E assim, vemos uma enxurrada de postagens aviltantes, afrontosas, humilhantes e difamatórias. Muitos até usam a espada amplamente difundida das fake news. As pessoas, como Pedro, agem por lealdade, mas na impulsividade, para defender o que elas acham certo. E o resultado é muitos Malcos, que perderam suas orelhas. Mas os Pedros contemporâneos se esquecem que, ao desferirem esses golpes, não acertam apenas os seus inimigos, eles também se machucam pois, afinal: “quem usa a espada digital, por ela será ferido”.

A solução para uma situação de pressão extrema como a do Getsêmani sempre será se resignar com o cálice da vontade de Deus. Isso implica ter paciência, responder com amor (mesmo que estejamos sendo insultados), buscar pela justiça sem agressividade, e até mesmo exercer o silêncio estratégico. E isso só é possível quando confiamos perfeitamente nos planos de Deus, que, ao seu tempo, se manifestará para conhecermos os seus caminhos.

O Getsêmani nos coloca diante de uma escolha diária: a espada ou o cálice?

A espada é o caminho da agressividade, do ataque, da vingança. E o cálice é o caminho da confiança na soberania de Deus e na sua redenção.

Diferente de Pedro, que nas crises pessoais, embainhemos as espadas, sejam elas palavras, postagens, vinganças. E que tomemos o cálice que o Pai nos oferece.

Você se dispõe a trocar a lógica da autodefesa pela lógica da submissão a Cristo?

A espada corta o outro e endurece o coração. Mas o cálice quebra o coração e cura o outro. A espada é barulhenta, mas o cálice é silencioso.

Diante de nós está a espada e o cálice. Hoje, embainhe a sua espada e beba do cálice.

Ricardo Castro
Pastor, Escritro, Músico e Doutor em Teologia



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