O VAZIO EXISTENCIAL E A PÉROLA

 



O vazio existencial é uma experiência comum a todas as pessoas. Mesmo as pessoas que vivem cercadas de amigos e que desfrutam dos confortos modernos, em algum momento se perguntarão se tudo vale mesmo a pena.

Recheamos nossos currículos com conhecimento, acumulamos conquistas, mas mesmo assim, a nossa alma permanece inquieta e vazia. Parece sempre que algo está faltando. Preenchemos os nossos dias com diversos afazeres e entretenimento, mas não conseguimos preencher o nosso coração vazio. Isso tudo apenas revela a nossa necessidade espiritual. E o motivo disso está revelado na Bíblia. Salomão nos diz que a eternidade está no coração do homem (Eclesiastes 3:11). Isto quer dizer que não somos constituídos apenas de matéria, mas também de um elemento transcendente. E este clama pelo que é eterno.

Sabendo disso, o Senhor Jesus conta duas parábolas gêmeas sobre a descoberta do que é transcendente e que, uma vez descoberto, transforma tudo.

Nessas historietas registradas no Evangelho de Mateus, o Mestre fala de um tesouro inesperado e uma pérola amplamente buscada.

O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo. O reino dos céus é também semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra. (Mateus 13:44-46)

Ambos os tesouros representam o Reino de Deus como resposta à nossa busca por satisfação e o preenchimento de nossa alma.

Assim como os melhores perfumes são encontrados em pequenos frascos, essas pequenas histórias são um achado valioso. Em um mundo repleto de coisas que clamam por nossa atenção, essas histórias nos desafiam a revermos nossos valores e prioridades mais profundas.

O Reino de Deus é o tesouro supremo que, uma vez descoberto, redefine completamente a nossa vida e transforma os nossos valores. Mas esse tesouro não é obtido com facilidade. Ele demanda rendição total de tudo o que somos e de tudo o que temos em troca de uma alegria e plenitude incomparáveis.

Talvez a pergunta que se faça seja: essas histórias foram contadas há mais de dois mil anos. Como elas poderiam nos ajudar a compreender o valor transformador do Reino de Deus?

 

A DESCOBERTA QUE REVOLUCIONA NOSSA PERSPECTIVA EXISTENCIAL

Antes de tudo, devemos perceber que na primeira história (a qual é chamada de Parábola), a descoberta do tesouro não foi planejada e nem merecida.

O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo. (Mateus 13:44)

Isso nos mostra que, assim como aquele homem que “esbarrou” no tesouro, às vezes a graça de Deus irrompe em nossa rotina quando menos esperamos. Às vezes, uma conversa, um texto, uma música etc., dá um insight de nossa necessidade por Deus. Portanto, podemos encarar essas coisas como instrumentos de Deus para encontrarmos a sua Graça.

Acontece que às vezes vivemos no piloto automático. Parece que nossa vida se resume a lutar pela sobrevivência, aliviar o estresse com entretenimento e nos preparar para o que está por vir. E no dia seguinte, toda essa dinâmica se repete. E isso, às vezes, se arrasta por anos a fio, até quando encontramos algo extraordinário, algo que quebrou o ciclo interminável em que estávamos inseridos, algo que partiu exclusivamente do Senhor. O apóstolo João fala a este respeito, quando diz que o início da vida espiritual não se dá pela ação humana.

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (João 1:12,13)

O texto da primeira parábola contada por Jesus diz que o homem estava trabalhando ordinariamente, até que encontrou o tesouro e passou a ficar “transbordante de alegria”.

Essa não foi uma tomada de decisão fria e calculada. A descoberta do tesouro foi uma intervenção de Deus no ordinário da rotina e demanda uma resposta emocional profunda. A verdade é que as grandes transformações que passamos envolvem não apenas a cognição, não são processadas apenas no intelecto, mas envolvem afeto profundo, envolvem o nosso coração. E quando encontramos o sentido para nossa vida, experimentamos júbilo que supera o entendimento racional. O apóstolo Paulo fala a este respeito quando diz que a paz de Deus excede o nosso entendimento.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus. (Filipenses 4:7).

Então, quando descobrimos esse tesouro maravilhoso, tudo o que antes parecia valioso perde a sua importância. Isso porque a descoberta do tesouro maravilhoso que é o Reino de Deus opera uma total inversão de prioridades. Depois que descobrimos o Reino de Deus, encontramos o motivo para viver e a plenitude para nossa alma. Então, o vazio que sentíamos dá lugar à completude da comunhão com Deus. E, dessa forma, tudo o que antes valorizávamos e o que acumulamos durante toda a vida, perde o brilho diante do que realmente importa. Nossa hierarquia de valores é totalmente reconstruída. O apóstolo Paulo nos ajuda a compreender isso nas palavras que seguem abaixo:

Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo. (Filipenses 3:7-8).

Você já experimentou um momento de descoberta como esse? Ou será que ainda vive em busca de satisfação nas coisas erradas que satisfazem apenas por um instante?

Permita que a sua rotina seja interrompida pelo Senhor. Abra-se para o inesperado. Deixe que o encontro com Cristo, o verdadeiro tesouro, redefina as suas prioridades.

Pare nesse momento e questione o que realmente ocupa o lugar de tesouro em seu coração.

Como vimos, o homem da primeira parábola praticamente esbarrou no tesouro, assim como muitos de nós tiveram a rotina interrompida inesperadamente pelo encontro da Graça. Mas existem outros que vêm por anos buscando ativamente encontrar um tesouro que faça a sua vida ter sentido.

 

A BUSCA INTENCIONAL PELA PLENITUDE VERDADEIRA

 

O reino dos céus é também semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra. (Mateus 13:45,46)

Esse negociante, diferente do primeiro, buscava por “boas pérolas”. Notemos que a expressão está no plural. Isso indica que ele já tinha acesso a coisas valiosas, mas nenhuma delas o satisfazia plenamente. É bem verdade que podemos nos identificar completamente com este homem. A exemplo dele, temos muitos “tesouros” em nossas vidas: relacionamentos, carreiras, conquistas. Mas, a despeito disso, permanecemos insatisfeitos, nada consegue nos preencher.

Quando era adolescente, eu também busquei sentido em prazeres, música, experiências intensas e caminhos destrutivos, mas nada pôde me preencher. Nesse período, não neguei nenhuma experiência à minha alma, e por isso, me identifico muito com a busca por satisfação do rei Salomão.

Tudo quanto desejaram os meus olhos, não lhes neguei, nem privei o meu coração de alegria alguma, mas o meu coração se alegrou por todo o meu trabalho, e isso foi o que me coube de todo o meu trabalho. Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol. (Eclesiastes 2:10-11).

Curiosamente, a psicologia contemporânea descreve esse impulso como busca por autenticidade e sentido. Experimentamos de tudo, mas sabemos haver algo mais, algo definitivo.

Passei alguns anos nessa busca autodestrutiva, até que encontrei a “pérola de grande valor”, como o negociador da Parábola. Aos dezessete anos, recebi Jesus como meu Salvador.

Ao encontrar o que procurava, aquele homem não precisou mais de nada.  A descoberta do Reino de Deus traz tanto uma certeza interior quanto a plenitude para a alma. É nesse momento, quando encontramos a pérola, que descobrimos a nossa verdadeira identidade. A descoberta da “pérola de grande valor” é o encontro daquele que nos criou.

É interessante notar que as pérolas são formadas quando um corpo estranho, como um grão de areia ou um parasita, entra em uma ostra e irrita o seu tecido orgânico interior. Como defesa, a ostra reveste o intruso de nácar (madrepérola) em um processo custoso e demorado que leva de dois a quatro anos para se completar. E essa é uma forte metáfora do que acontece conosco. Somos “feridos” interiormente pelas coisas do mundo, e aí o Senhor, com seu nácar, reveste a nossa dor e a transforma em uma “pérola de grande valor”, a descoberta do Reino de Deus.

E é assim que entendemos que toda a busca anterior, todas as dores pelo que passamos, foi uma preparação para o encontro da pérola.

Outra coisa que é importante notar é que o comerciante “vende tudo o que possui” não por obrigação, mas por uma escolha consciente, já que ele sabe que não encontrará outro tesouro igual. Essa é a atitude lógica de quem encontrou o que realmente importa. Isso é o que a psicologia chama de “autorealização”, que é quando nos tornamos plenamente no que fomos criados para ser: filhos de Deus.

A salvação é gratuita, mas o discipulado exige renúncia. Isso exige renunciar às versões falsas de nós mesmos. O Reino de Deus demanda que abandonemos nossas defesas, máscaras e ilusões.

Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo. (Lucas 14:33).

O que você tem buscado para preencher o vazio que existe no seu coração? Quantas “pérolas” falsas você já experimentou sem encontrar a verdadeira satisfação?

Deus ama a quem busca com sinceridade, a quem busca apaixonadamente.

Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração. (Jeremias 29:13).

Pare novamente e examine-se. O que você está realmente buscando? Está buscando apenas satisfação imediata, colecionando experiências? Ou você está buscando a satisfação total que apenas o Reino de Deus pode proporcionar.

O Senhor colocou diante de você a “pérola de grande valor”, mas exige o abandono das pérolas falsas.

 

A RENDIÇÃO TOTAL QUE LIBERTA PARA A VERDADEIRA VIDA.

Vivemos na era dos sentidos em que as experiências sensoriais são extremamente valorizadas. E isso incide, inclusive, no relacionamento com Deus. As pessoas querem sentir Deus, querem ter uma comprovação sensorial de que Ele está presente em suas vidas, e só então, verão se esse relacionamento vale a pena.

Mas, notemos que o negociador da parábola “vende tudo” o que possuía para adquirir a pérola que encontrara. Muito mais do que um sentimento para com o que ele encontrou, o comerciante teve uma ação concreta. Vender tudo foi a ação de ambos os homens das histórias contadas por Jesus. Ambos agiram decididamente. Esse é o momento existencial que a psicologia diz que é quando escolhemos quem seremos. Isso porque não existe crescimento sem comprometimento. Dessa forma, vemos que a fé verdadeira, a que transforma radicalmente, nos move da contemplação para a ação. Definimos nossa identidade não pelo que dizemos, mas pelo que realmente entregamos.

Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim. Quem acha a sua vida perdê-la-á;quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-lá-á. (Mateus 10:37-39)

As pessoas pensam que abandonar certas coisas é perda. Mas essas Parábolas nos mostram o contrário. Abandonar qualquer coisa pelo tesouro do Reino de Deus é ganho. No caso dos homens da parábola, vender tudo os libertou. Eles não ficaram mais pobres por terem se desfeito de tudo. Eles ficaram extremamente mais ricos. A verdadeira liberdade está na escolha de um compromisso definitivo com o Reino de Deus e não em preservar todas as opções disponíveis. Quando nos entregamos totalmente ao Senhor Jesus, encontramos a libertação da escravidão que nem percebíamos.

Se, pois, o Filho vos liberta, verdadeiramente sereis livres. (João 8:36)

Os homens não lamentaram o que deixaram, mas celebraram o que ganharam. Isso porque a descoberta do Reino de Deus não subtrai, mas multiplica. E então, onde havia vazio, há plenitude. Onde havia ansiedade, há paz. Onde havia solidão, há comunhão com Deus. A entrega total ao Reino de Deus não empobrece, mas enriquece com sentido, propósito e alegria inabaláveis.

Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. (João 10:10).

O que tem impedido a sua entrega total? Quais escravidões te mantêm sob controle, sem dar chance para a rendição a Cristo?

Hoje é dia de decisão. Abandone as pérolas falsas. Entregue seus planos, segurança, orgulho e medos, para adquirir a “pérola de grande valor” do Reino de Deus. A vida abundante está à sua espera depois dessa entrega.

Jesus contou duas histórias com apenas uma verdade: o Reino de Deus vale tudo. Alguns o encontram inesperadamente. Outros, porém, o buscam a vida inteira. Mas todos os que o descobrem respondem da mesma maneira: entregam tudo para adquiri-lo. E é a alegria transbordante que motiva essa entrega radical, uma alegria que transcende a lógica.

Contudo, devo advertir você de que não podemos ter “o melhor de dois mundos”. Isto é, não podemos possuir o reino enquanto ainda temos ídolos no coração.

A pérola está diante de você. O que fará com ela? Você entregará tudo para adquiri-lo? Renderá tudo para possuí-lo? O vazio existencial encontra resposta apenas no Reino de Deus. Que a sua resposta seja: “Entrego tudo a ti, Senhor”.

 

Ricardo Castro
Pastor, Escritor, Músico e Doutor em Teologia

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