QUANDO A ALMA GRITA POR DESCANSO



A velocidade dos nossos dias é impressionante. A cada dia, as coisas se tornam cada vez mais rápidas. E o pior é que gostamos disso. Gostamos que as coisas nos sejam entregues com rapidez, e com os avanços tecnológicos, temos conseguido.

Todavia, esse viver acelerado tem seus efeitos colaterais. O que achávamos que nos traria liberdade, na verdade nos trouxe uma nova escravidão. Somos escravos das tecnologias, do entretenimento e do alívio imediato. E mesmo com todo o conforto que os dias modernos nos proporcionam, as pessoas estão cada vez mais vazias e exaustas emocionalmente. Porém, essa exaustão não se apresenta primeiramente no nosso corpo, como muitas pessoas pensam. De forma muito silenciosa e num processo lento, ela corrói as profundezas da alma.

Atrelado a isso está o fato de que queremos velocidade e presteza em tudo, mas corremos sem saber para onde vamos realmente.  E assim, o cansaço de nossos dias não se cura dormindo ou tirando férias. O problema é mais profundo. A verdade é que nossa geração está adoecendo em proporções alarmantes e a necessidade urgente é da cura para a alma.

Louvo a Deus que tem concedido sabedoria e preparo a profissionais que nos ajudam no cuidado da mente e das emoções. E dessa forma, psicólogos e psiquiatras exercem um papel fundamental no mundo, especialmente no que tange a traumas, transtornos e desequilíbrio, que necessitam de acompanhamento técnico. Contudo, ainda que tais recursos sejam instrumentos valiosos, eles não conseguem alcançar a dimensão espiritual da separação entre o homem e Deus. A reorganização emocional pode aliviar sintomas, mas somente a reconciliação com o Criador pode restaurar plenamente a alma.

O que disse acima pode parecer uma solução simplista. Mas a verdade é que a solução em Cristo é mesmo muito simples. Jesus oferece o alívio para nossas almas:

Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso. Sejam meus seguidores e aprendam comigo porque sou bondoso e tenho um coração humilde; e vocês encontrarão descanso (Mateus 11:28,29 – Versão NTLH)

 

O DIAGNÓSTICO: RECONHECENDO O CANSAÇO INTERIOR

Deus não nos fez para vivermos ansiosos e nem sobrecarregados. Mas a luta pela sobrevivência e as expectativas sociais que são quase impossíveis de alcançar, nos sobrecarregam muito. Sobrecarregam também a nossa alma as injustiças e a falta de empatia das pessoas. Mas, sobretudo, sobrecarrega a nossa alma o nosso próprio pecado, nossas falhas, vícios e imperfeições.

Contudo, um dos fatores que mais roubam a paz nesses dias é a comparação. As redes sociais são vitrinas que expõem vidas perfeitas, conquistas maravilhosas e histórias felizes (ainda que muitas vezes tudo isso não passe de uma ilusão). E nós, telespectadores, ficamos frustrados por não ver a nossa vida tão próspera quanto a dos outros. Porém, muito verdadeiro é o ditado que diz que “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Isso porque só se posta nas redes sociais parte da realidade e nunca a real condição. E, em muitos casos, tudo o que é postado é um engodo. Entretanto, mesmo assim, costumamos nos comparar com os “influenciadores” e isso se torna uma carga muito pesada.

A aparência se tornou muito mais importante do que o real conteúdo. Costumamos valorizar as pessoas pelo que elas apresentam e não pelo que são. Não é à toa que os famosos são chamados de “personalidades”. E as redes sociais são um campo fértil para tudo isso. E nós, meros mortais, queremos imitar aqueles que estão em evidência, tentando produzir conteúdo que também nos torne relevantes. Dessa forma, se perde a capacidade de existir sem produzir conteúdo. E nessa louca corrida pelos likes, as pessoas têm feito loucuras.

A tecnologia conseguiu conectar pessoas em todo o mundo, mas as desconectou emocionalmente. Hoje temos muito mais amigos virtuais do que físicos (quando os temos).

Contudo, não condeno totalmente os avanços tecnológicos de nossa geração. Eu seria um tolo se o fizesse, dada a melhora imensurável na qualidade de vida e no conforto que temos hoje. Mas o vazio existencial cresce assustadoramente apesar de todas as conquistas.

Tentamos curar o interior com soluções externas. Buscamos a paz no conforto, a saciedade no entretenimento e a satisfação nas substâncias químicas. Ou seja, buscamos no mundo aquilo que somente Deus pode nos dar.

O meu povo cometeu dois pecados: Eles abandonaram a mim, a fonte de água fresca, e cavaram cisternas, cisternas rachadas que deixam vazar a água da chuva. (Jeremias 2:13 – Versão NTLH)

 

O costume de hoje é remediar os sintomas sem cuidar da raiz do problema. Sentir-se bem ao ir ao cinema, comer uma comida saborosa em um bom restaurante e passar horas conversando com pessoas queridas pode até trazer algum alívio, mas não resolve o problema real da alma: o vazio. As pessoas costumam sufocar o grito de suas almas com paliativos seculares.

O primeiro passo para a cura é parar de fingir que está tudo bem e reconhecer honestamente o estado de exaustão e vazio da alma. É admitir que precisamos de ajuda que está além de nós. É necessário se voltar para a fonte que pode trazer o verdadeiro descanso.

Qual foi a última vez que você sentiu descanso na alma? Quando você se sentiu em paz verdadeiramente? Você tem usado de sinceridade sobre o cansaço na alma? Quais as cisternas que você tem cavado buscando satisfação?

Reserve um tempo diário em solidão para examinar seu coração com honestidade. E aproveite esta oportunidade para orar ao Senhor, pedindo que Ele derrame sobre você o Seu bálsamo curativo.

O reconhecimento da raiz do problema é sempre o melhor caminho para a cura de qualquer situação e é o primeiro passo em direção da libertação da alma.

Pare de fingir que está tudo bem. Essa máscara não cabe naqueles que querem realmente a cura para sua alma. Você pode até buscar ajuda profissional, e ela irá te dar certo alívio, mas o preenchimento da tua alma, só o Senhor pode proporcionar.

No caminho para a restauração, depois que reconhecemos que temos um problema, precisamos entender a sua origem. Reconhecer o cansaço não é suficiente. Precisamos compreender de onde ele procede.

 

AS RAÍZES DO ESGOTAMENTO DA ALMA

Fomos criados para o louvor da glória de Deus e, portanto, a maior expressão de nosso propósito é ter comunhão com Ele. E os únicos que tiveram essa comunhão plena foram Adão e Eva, que viviam em perfeição e o Senhor os visitava presencialmente na viração do dia. Mas eles perderam esse privilégio quando deliberadamente decidiram pecar. E foi assim que o pecado desfez a conexão entre a humanidade e a fonte da vida eterna. Fomos criados para a dependência de Deus, mas, por causa dos nossos primeiros pais, buscamos a autonomia.

 

Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. (Isaías 53:6)

 

A queda resultante dessa independência gerou um vazio existencial que é impossível de preencher por meios humanos. Tentamos ser deuses e falhamos miseravelmente. Assumimos coisas que são de responsabilidade unicamente de Deus. E isso gera cargas que nunca foram destinadas para nós.

Assim como Adão e Eva, culpamos circunstâncias externas por esse problema que é interno. E hoje em dia é comum as pessoas negarem a realidade do pecado e suas consequências.

 

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? (Jeremias 17:9)

 

Quando muito, as pessoas reconhecem que falham, mas são incapazes de reconhecer que, por sermos pecadores, estamos afastados do Senhor.

 

Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. (Romanos 3:23)

 

E o resultado de não reconhecer que somos pecadores é que as pessoas não veem a necessidade de um Salvador. Afinal, de que elas têm que ser salvas, já que não pecam, não erram?

Contudo, existe outro resultado que esse proceder gera: o cansaço espiritual. 

O caminho para livrar-se disso é reconhecer que a separação de Deus é a raiz primária de todos os males que nos afligem. Devemos também compreender que a autossuficiência é uma ilusão perigosa e muito destrutiva. E, por fim, aceitar a verdade de que fomos criados para ter comunhão com Deus e que, longe dele, estamos fadados ao fracasso eterno.

Você tem tentado viver como se não precisasse de Deus? Você tem buscado a sua identidade longe de Cristo? Sua alma agora clama por descanso? Sua alma clama por reconciliação com Deus?

Deixe de buscar curas superficiais para esse problema profundo. Enfrente a realidade da separação de Deus e abandone a ilusão da autonomia. Reconheça agora que você precisa de Jesus e deixe que Ele atinja as raízes mais profundas de sua alma.

 

A TERAPIA: O CAMINHO PARA O DESCANSO DA ALMA

Como disse antes, quando buscamos saciar a sede em cisternas rachadas, além de perdermos tempo, empregamos muito esforço. E isso cansa a alma.

Jesus Cristo, a fonte da água da vida, é a única ponte entre nós e a verdadeira saciedade da sede, a satisfação para a fome espiritual.

Muitos de nós carregamos pesadas cargas por toda a vida, mas isso não precisa ser assim. Jesus levou sobre si o peso de nosso cansaço.

 

Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. (Isaías 53:4)

 

Não precisamos mais arrastar as cargas que nos impedem de prosseguir. Não precisamos mais ter vergonha. Não precisamos mais ser consumidos pela culpa. Na cruz, Jesus carregou completamente todo esse fardo por nós.

Alguns reconhecem o que Jesus fez na cruz, mas acham que nunca conseguirão alcançar essas bênçãos por pensarem que devem pagar. Mas Jesus nos convida a receber gratuitamente o que nunca poderíamos conquistar. Esse convite é pessoal, amoroso e urgente. Não é necessário pagar nada. A única coisa que devemos fazer é entregar a Ele o controle de tudo.

Porém, é interessante notar que no texto de Mateus 11:28,29, Jesus fala que tanto o seu jugo quanto o seu fardo não são pesados e opressores, mas, pelo contrário, são paradoxalmente libertadores. Aprender isso transforma inteiramente nossa perspectiva de vida.

Porém, muitos dos que dizem seguir a Jesus o conhecem apenas intelectualmente e, por isso, nunca experimentaram o seu descanso. Essas pessoas querem a cura sem a entrega total de suas almas a Jesus. Elas preferem o cansaço que já lhes é familiar em lugar do descanso que não conhecem. Em suma, elas vivem uma religiosidade vazia.

Você entregou sua vida a Jesus ou apenas aderiu a uma religião? Quais cargas você precisa deixar aos pés de Jesus? O que tem te impedido de desfrutar do descanso de Cristo? Você confia que a obra de Cristo é suficiente para você, ou acredita que precisa “pagar o preço”?

Entregar a vida a Jesus não é um evento religioso, mas sim um encontro que transforma a alma. Além disso, esse encontro concede a paz que transcende as circunstâncias externas. E então, o fardo que era pesado e impedia você de seguir adiante torna-se leve e suportável. É nesse encontro que você descobre que Jesus era tudo o que precisava.

 

A MANUTENÇÃO: VIVENDO NO DESCANSO PERMANENTE DE CRISTO

Uma vez que já depositamos aos pés de Jesus as nossas cargas e começamos a desfrutar do descanso, precisamos diariamente renovar nossa entrega. Isto é, não podemos entregar os fardos a Jesus para depois tomá-los de volta.

Muitos experimentam a cura inicial, mas, por falta de cuidado, acabam voltando ao cansaço. Permitimos que urgências predominem sobre nossa vida espiritual. Por causa disso, precisamos fazer uma manutenção constante e as disciplinas espirituais (oração, jejum, louvor, leitura da Palavra) têm um papel vital no sustento da nossa alma que agora está descansada. Essas disciplinas mantém as nossas almas saudáveis. Sem falar que a igreja, a qual é o Corpo de Cristo, é essencial para a nossa trajetória espiritual.

Contudo, para podermos fazer a manutenção do descanso, é necessário que aprendamos a dizer não a muitas coisas que concorrem para retornarmos ao estado anterior. A manutenção do descanso envolve intencionalidade e sabedoria diárias e consistentes.

O Espírito Santo utiliza todas essas ferramentas para que vivamos descansadamente em Cristo.

 

Chegamos ao fim desse texto, mas esse é apenas o começo de sua trajetória desfrutando do descanso do Senhor. Os fardos que cansam e impedem o andar não precisam estar no seu futuro, pois Jesus já levou todos os seus fardos e te oferece um descanso real para a alma.

Mas, nesta cura, que na realidade é um encontro, deve estar incluída uma entrega total e um compromisso diário.

Porém, se sua alma ainda está gritando por descanso, saiba que Jesus está de braços abertos te esperando. Vá a Ele assim como está, mesmo com a alma cansada e sobrecarregada. Só Ele pode te aliviar e fazer você uma testemunha viva dessa transformação radical. Entregue seus fardos a Ele e comece uma caminhada de cura e paz que apenas Ele pode oferecer.

Assim que terminar esta leitura, pare por um momento e silencie o barulho interior. Faça com que as distrações cessem por um momento. Com honestidade responda para si mesmo: sua alma ainda está cansada? Ainda existe culpa não resolvida? Ainda existe uma sede não saciada?

Aproveite este momento para dizer a Deus o que nunca teve coragem de verbalizar. Confesse a sua exaustão e reconheça a sua necessidade do descanso de Cristo. Entregue a ele as suas cargas agora para descansar. Ele prometeu: “Venham a mim... e eu lhes darei descanso”. (Mateus 11:28).


Ricardo Castro
Pastor, Escritor, Músico e Doutor em Teologia

Comentários

Postagens mais visitadas