QUANDO O INVERNO ACABA E A PORTA SE ABRE
Romanos 13.11
E digo isto a vós outros que conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está, agora, mais perto do que quando, no princípio, cremos.
Efésios 5:14
Pelo que diz: Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará.
Todos já experimentamos invernos intensos. Mas não estou falando de invernos físicos e sim existenciais, espirituais. São invernos da alma, silenciosos, densos e paralisantes.
Quando estamos passando por esses invernos, é comum fecharmos as portas e nos enclausurarmos no recôndito do nosso ser. Isso porque não queremos ter interações, porque talvez nos decepcionemos com as pessoas.
Mas, o mais interessante é que, geralmente, não queremos transparecer a situação sombria na qual a nossa alma se encontra e, por isso, sorrimos. Corremos por fora, mas por dentro estamos estacionados.
E isso tudo incide também em nossa vida espiritual. Nessas ocasiões, a nossa religiosidade se torna morna, é penas uma resposta automática aos ritos aos quais estamos acostumados. E assim, passamos a usar máscaras que escondem o real estado da nossa alma.
Contudo, a Bíblia nos revela que temos um Pai amoroso, que se interessa por nós. Temos um Deus que nos chama para sair da letargia em que estamos afundados. Ele vê além de nossas máscaras e visita os nossos invernos interiores. Ele está à nossa porta e bate, insiste e nos convida a sair.
Vemos isso nos dois trechos bíblicos que abrem esse texto. Neles, vemos o Amado da nossa alma insistindo pacientemente. Apenas Ele pode transformar os nossos quartos trancados em lugares de encontro com Ele.
Jesus hoje está nos chamando para sairmos da letargia espiritual. E essa letargia não nasce do nada: ela nasce do medo, do trauma e da autoproteção.
O INVERNO DA ALMA NOS ENCLAUSURA EM MEDOS
Existe um livro bíblico que trata perfeitamente do que estamos vendo aqui. É o livro de Cantares, escrito pelo sábio rei Salomão, quando contava com cerca de 25 anos. Ele se apaixona por uma plebeia chamada Sulamita. Então houve um severo inverno que os separou. Salomão foi para o seu palácio e a Sulamita para sua casa. Mas quando o inverno passou, o jovem Salomão vai à casa de sua amada e a encontra fechada.
O meu amado fala e me diz: Levanta-te, querida minha, formosa minha, e vem. Porque eis que passou o inverno, cessou a chuva e se foi; aparecem as flores na terra, chegou o tempo de cantarem as aves, e a voz da rola ouve-se em nossa terra. A figueira já deu os seus figuinhos, e as vides em flor exalam o seu aroma; levanta-te, querida minha, formosa minha, e vem. Pomba minha, que andas pelas fendas das rochas, no esconderijo das penhas escarpadas, mostra-me o rosto, faze-me ouvir a tua voz; porque a tua voz é doce, e o teu rosto, amável. (Cantares 2.10-14).
Historicamente, a tradição eclesiástica aplica a chave interpretativa que vê Salomão como um tipo de Cristo (em sua beleza, sabedoria, realeza e poderio) e a Sulamita como um tipo da igreja (em sua beleza, simplicidade e sofrimento). E assim, podemos fazer uma aplicação de que Cantares fala de um inverno externo que revela invernos interiores e que Jesus nos convida gentilmente no inverno, revelando a sua graça paciente.
Assim como a Sulamita, nos escondemos. E o fazemos, talvez para evitar a dor, a frustração. Isso porque estamos profundamente vulneráveis. E, por causa disso, fugimos da liberdade, preferindo prisões internas, mas que são mais confortáveis do que enfrentar o “retorno à vida”.
A verdade é que, nessas ocasiões, vivemos um vazio existencial, mesmo estando cercados de estímulos e informações. Temos disponíveis confortos e dispositivos nunca antes imaginados, que podem proporcionar grandes prazeres. Mas nada disso consegue dirimir o nosso inverno interior.
O tempo de cantar chegou, Jesus nos convida a sair, mas permanecemos calados e trancados no recôndito de nossa alma.
Mas, o primeiro passo para sair dessa situação é reconhecer os nossos invernos emocionais e apresentá-los ao nosso Noivo Jesus. Ele está à porta, nos convidando a sair da clausura.
O inverno tem o poder de nos isolar e o que resulta é a letargia que acaba nos paralisando.
A LETARGIA ESPIRITUAL INVENTA DESCULPAS PARA ADIAR RESPOSTAS
A Sulamita, mesmo esperando o Noivo, acabou estipulando condições para sair, eram desculpas para não sair da sua prisão confortável.
Eu dormia, mas o meu coração velava; eis a voz do meu amado, que está batendo: Abre-me, minha irmã, querida minha, pomba minha, imaculada minha, porque a minha cabeça está cheia de orvalho, os meus cabelos, das gotas da noite. Já despi a minha túnica; como a tornarei a vestir? Já lavei os meus pés; como os tornarei a sujar? O meu amado meteu a mão por uma fresta, e o meu coração estremeceu por amor dele. Levantei-me para abrir ao meu amado, e as minhas mãos destilavam mirra, e os meus dedos, mirra preciosa, sobre a aldrava da fechadura. Abri ao meu amado, mas já o meu amado se retirara e se fora; a minha alma se me derreteu, quando ele falou; busquei-o e não o achei; chamei-o, e não me respondeu. Acharam-me os guardas que rondavam pela cidade; espancaram-me e feriram-me; tiraram-me o meu manto os guardas dos muros. Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, se achardes o meu amado, que lhe digais que estou enferma de amor. (Cantares 5.2-8)
Observe que a Sulamita impetra desculpas aparentemente plausíveis. E assim como ela, procrastinamos uma atitude espiritual com racionalizações sofisticadas. Tudo para anestesiar a culpa por cedermos ao inverno e preferirmos a clausura.
Quando a noiva decidiu abrir a porta, já era tarde demais. O Noivo havia ido embora e o que sobrou foi a ausência, o silêncio e o vazio. O chamado do Noivo não é apenas emocional; é espiritual e urgente, pois podemos fazer uma aplicação ao fato de que Jesus está para arrebatar a sua igreja e, por isso, está chamando sua noiva à intimidade com Ele. E muitos de nós respondemos apenas com desculpas. Mas o arrebatamento acontecerá e o que ficará será apenas o vazio.
O sofrimento posterior é o resultado de nossa resistência que hoje justificamos como “inocente”. O coração demora a responder a Jesus e o inverno interior apenas se intensifica.
Diante de tudo isso, devo dizer que o que você deve fazer, sem demora, é identificar as suas desculpas ao chamado do Noivo. Deve confessá-las àquele que pode curar a sua alma e declarar-se sinceramente para Ele.
Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como foi na provocação. (Hebreus 3.15).
Mas, mesmo diante da realidade de nossa letargia e desculpas, o Noivo persiste em bater à porta fechada.
JESUS HOJE BATE, GENTILMENTE, NA PORTA DO CORAÇÃO
Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo. (Apocalipse 3.20).
Esse trecho do Apocalipse é muito forte. Ele foi endereçado à igreja de Laodiceia, que se julgava rica, porém interiormente era pobre, cega e nua. Eles julgavam que estava tudo bem, mas a realidade de sua condição espiritual era totalmente diferente.
Contudo, devemos observar que a iniciativa é sempre de Jesus. É a sua Graça que alcança os indiferentes.
Outra coisa que devemos observar é a gentileza de seu chamado. Ele bate educadamente e chama com palavras de amor, assim como fez Salomão para a Sulamita. Jesus é educado, bate sem arrombar. E o que decorre da nossa resposta ao seu chamado é a comunhão segura com Ele. Além disso, o Noivo curará as nossas feridas antigas, aquelas que a tempestade anterior gerou e nos fez entrar na clausura.
Porém, o Noivo não quer religiosidade, rituais vazios. Ele deseja uma ceia íntima e comunhão profunda.
Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora. (João 6.37)
Pare por um momento. Ouça agora conscientemente esse bater educado à porta do seu coração. Ouça as palavras gentis e amorosas com que o Noivo te chama. Ouça os apelos amorosos de Jesus.
Quando abrimos a porta, que só pode ser aberta por dentro, encontramos amor, descanso, comunhão e cura.
ABRIR A PORTA TRAZ DESCANSO, ALÍVIO E NOVO CÂNTICO
O Noivo Jesus é aquele que acolhe os cansados e sobrecarregados, prometendo alívio real, profundo.
Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve. (Mateus 11:28-30)
Entretanto, o descanso que Jesus promete não é passividade. É, ao contrário, um andar em sincronia com Ele. Esse descanso envolve segurança, previsibilidade, vínculo estável e acolhimento.
Ao descansar em Cristo, encontramos sentido para viver, coragem para prosseguir e, sobretudo, vontade de existir. Isto é, o tempo de cantar retorna e assim brotam novamente a confiança, a gratidão e a esperança.
Que áreas da sua vida você ainda não abriu para Jesus?
Entregue suas cargas aos cuidados de Jesus.
Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. (1ª Pedro 5:7).
Não basta admirar o Amado e dizer que o esperamos, como fez a Sulamita, mas não levantou para abrir a porta. É preciso sair da letargia. Nossa geração sofisticada demais continua trancada dentro de si, cansada e espiritualmente faminta.
Nossa alma anseia por sentido, mas teme um encontro verdadeiro com Jesus.
Mas hoje o Amado da nossa alma chama e insiste: levante-se, formosa minha, vem!
Hoje é dia de se render. Hoje é dia de voltar. Hoje é dia de cantar outra vez.
Você permanecerá na clausura ou abrirá finalmente a porta?
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| Ricardo Castro Pastor, Escritor, Músico e doutor em teologia |




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