QUE AUÊ É ESSE?
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Nos últimos dias as redes sociais estão sendo bombardeadas com uma polêmica envolvendo o pastor e cantor Marco Telles.
É impossível que qualquer cristão brasileiro não saiba em torno do que gira essa polêmica. Mas, para aqueles que são eremitas, explicarei o fato.
Marco Telles é um pastor e cantor natural de João Pessoa/PB, conhecido por sua proposta de integrar elementos culturais em suas produções.
Recentemente, Marco Telles ganhou grande repercussão após o lançamento do álbum-sermão “O Grande Banquete” que tem turnê de lançamento com datas confirmadas em Natal, Fortaleza, Brasília, Piauí, Salvador, São Paulo, Belém, Recife, Vila Velha, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Então, onde está a polêmica? Espere que estou chegando lá.
Em 2016 vi o Telles em um evento no qual a banda dos meus filhos também tocou, e gostei do que vi à época. Depois disso, não ouvi mais nada sobre ele. Mas nestes dias vi nas redes sociais um tsunami de posts a respeito “Grande banquete” e fiquei pasmo. O que segue abaixo é a minha opinião com base no discernimento crítico, na lógica e, sobretudo, no conhecimento bíblico.
Antes de tudo, Marco Telles levou ao extremo a sua tentativa de mesclar a cultura brasileira ao evangelho, fazendo com que este, de certa forma, perdesse sua essência. Ora, se para ser assimilado o evangelho do Telles tem que ser diluído, isso só mostra que o seu “evangelho” não tem essência, é metamorfo e carece de coerência cultural. Por exemplo, propositadamente o Telles aplicou no seu coletivo artístico uma paleta de cores que remete às religiões afro. Ele também implementou o uso de guizos, contas e fitinhas, coisas que são de uso das religiões umbandistas. E, além disso, uma das vocalistas usa uma camisa decorada com desenhos que lembram a pintura usada pelos membros do Olodum. E outra vocalista, usa uma roupa de cor vermelha bem semelhante às roupas que são usadas em reuniões de candomblé.
Então o problema gira em torno de roupas e acessórios? Espere mais um pouco que a coisa piora.
O centro da polêmica está na letra da música “Auê (a fé ganhou)”. O fato é que em nossa língua, Auê significa confusão, o que causa estranheza, já que a Bíblia diz que o Senhor não é Deus de confusão (1ª Coríntios 14:33).
Mas o Telles afirma que a palavra se origina do Tupi-Guarani e significa festa, segundo um pajé que conheceu na Bahia.
Contudo, Telles se esquece (ou não) de que os indígenas são panteístas e “festa para deus” na sua religiosidade implica em adoração dos deuses da sua cultura. Ademais, os compositores, no afã de querer tornar o evangelho mais palatável para a cultura brasileira, acabaram tornando-o obtuso, já que para a maioria de nós, “Auê” é confusão.
Mas, além disso, a palavra Auê tem um sentido bem diverso na cultura umbandista. Ela é um tipo de saudação às entidades da religião, tanto quanto um pedido de acesso a elas. Portanto, o título foi um tiro no pé.
Então, foi apenas o nome da música que gerou a polêmica? Não. A coisa é bem pior.
Na sua letra, há citações a um “Zé” que, quando entra, todos riem, e a uma “Maria”, que samba, roda a saia e mostra a cor de alguma coisa. E o Telles, mais uma vez, explica que a intenção foi dizer que o Reino de Deus é dos “Zés” e das “Marias”, como sendo pessoas excluídas pela elite.
Muito interessante e louvável. Contudo, no conjunto da obra, com todas as contas, guizos e fitinhas, paleta de cores que remetem a outra religião, isso não pegou nada bem. Coincidentemente (ou não), nas religiões afro, existe uma entidade chamada de “Zé Pilintra” que veste as mesmas cores que o Telles estava usando no show e que, quando baixa no terreiro, causa risos, descontrole emocional, auê.
E quanto a Maria, também existem algumas entidades com este nome: Maria Padilha, Maria Mulambo, Maria Quitéria. A primeira dessas veste vermelho como a vocalista Ana Heloysa, e ela samba, quando baixa no terreiro. Que coincidência (ou não). Além disso, para os umbandistas, rodar a saia simboliza a manipulação de energias, a limpeza espiritual e a saudação às forças da natureza e aos ancestrais.
O que isso tem a ver com o Evangelho? Nada.
E lá se foi o Telles e suas explicações. Mas, uma coisa é certa. Se uma mensagem tem que ser explicada, ela não cumpriu o seu papel de ser entendida. Isso é o básico da comunicação: quem se comunica, quer se fazer entendido. E se não consegue, sua comunicação falhou. Então, na ânsia de mesclar o Evangelho à cultura, Marco Telles só trouxe “auê”. (Perdoe-me o terrível trocadilho).
A Bíblia é muito clara, quando diz que não devemos usar nossa liberdade de modo a fazer nossos irmãos tropeçarem (Romanos 14:21). Do mesmo modo, 1ª Coríntios 8:9 nos orienta que a liberdade pode se tornar pecado quando destrói a espiritualidade do mais fraco. Assim, aplicando isso ao caso do “Auê”, se qualquer coisa gera confusão e associações erradas, deixa de ser uma coisa simples (simples cultura) e passa a ser escândalo.
Mas será que tudo isso não foi uma estratégia evangelística?
Bem, uma coisa é contextualização, outra coisa é sincretismo religioso. Contextualização implica no uso de uma linguagem e forma cultural para comunicar a Cristo. Já o sincretismo é a mistura de símbolos e crenças incompatíveis com o Evangelho.
Poder-se-ia dizer que o coletivo Candiero estava apenas reproduzindo o que fez o apóstolo Paulo em Atenas, fato registrado em Atos 17.
Ao ver os inúmeros altares às diversas divindades, Paulo se revoltou, mas ele usou o altar ao “Deus desconhecido” como um gancho para pregar a Cristo, que era desconhecido para os atenienses. Entretanto, ele não diluiu a mensagem do evangelho, mesclando paganismo e cristianismo; ao contrário, pregou a mensagem pura de Cristo. Ele também não se tornou idólatra para se identificar com eles, antes, proclamou com fidelidade quem é o verdadeiro Deus.
Então, o Marco Telles errou apenas com essa letra e esse álbum? Infelizmente, não. Seus frutos mostram seus erros.
Jesus nos orienta a não julgar por julgar, mas diz que devemos avaliar os frutos das pessoas. Por isso, ainda que não conheça o Telles pessoalmente, posso avaliar quais frutos ele tem dado. E, devido à grande exposição que as redes sociais proporcionam isso não é nem um pouco difícil. Por causa disso, vemos que o Marco Telles frequentemente incorpora em seu setlist músicas e referências oriundas do repertório secular, mesmo tocando em igrejas e eventos cristãos. E muitas dessas músicas são associadas a visões espirituais e culturais incompatíveis com o Evangelho. Sem falar que, em algumas falas dele, percebe-se claramente sua adesão ao liberalismo teológico.
À luz do ensino bíblico, o problema não é a cultura em si, mas o enfraquecimento da clareza do evangelho e o escândalo aos mais fracos na fé.
Todavia, não vejo Marco Telles e o seu coletivo artístico como pessoas do mal. Os vejo antes como pessoas incautas que, na ânsia por serem relevantes e inovadores, acabaram ultrapassando limites bíblicos e gerando confusão. Na tentativa de contextualizar, apenas ingressaram na fila dos hereges,
Mas não digo isso para “passar pano” em seus erros, mas sim, para que estejamos alertas para que também não sejamos enganados pela cultura e militância como ele foi.
Contudo, todo esse “Auê” causado pelo Marco Telles tem seu lado bom, pois serve de alerta para que a igreja reavalie com discernimento quais mensagens, líderes e expressões culturais temos adotado.
A Bíblia nos orienta a não adorar a Deus conforme os padrões mundanos (Deuteronômio 12:29-32) e que não nos conformemos com o mundo (Romanos 12:2), mas a permanecermos firmes na fé.
Cabe a nós, cristãos ortodoxos, manter nosso radar ligado para que esses sincretismos religiosos velados não maculem a nossa fé. Que sejamos verdadeiros guerreiros que lutam pela verdade uma vez dada aos santos (Judas 1:3) e que não temamos denunciar os desvios doutrinários travestido de cultura.
Que contextualizemos o Evangelho sem diluí-lo e nem misturá-lo com elementos incompatíveis. Afinal, não há comunhão entre luz e trevas (2ª Coríntios 6.14-18).
Que tudo isso não nos leve ao ódio, mas ao zelo. Que oremos
e trabalhemos para que essa geração seja mais bíblica, penitente e mais temente
ao Senhor, que entenda que o Evangelho não precisa ser diluído para ser recebido.
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Ricardo Castro |




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