QUANDO A RESPOSTA DE DEUS NÃO É A QUE ESPERÁVAMOS

 



Nasci em meados da década de 1970 e atravessei a juventude na década de 1990. E de lá para cá, percebo que cada vez mais, as pessoas sucumbem ao imediatismo absoluto. E elas, inclusive, aplicam esse proceder no seu relacionamento com Deus. Elas querem que Ele responda rápido e do jeito delas.

Contudo, as coisas com Deus não são assim. Ele é soberano e age conforme a sua vontade, independentemente do que fizermos ou deixarmos de fazer.

Mas, e quando o que pedimos tem uma motivação que julgamos justa? Por que às vezes Deus responde negativamente mesmo nesses casos?

Aconteceu algo semelhante com o rei Davi, ele orou prostrado por sete dias, chorou e jejuou por um filho que estava doente. Mas, mesmo assim, Deus respondeu negativamente, e a criança morreu.

Vendo assim, sem conhecer os pormenores, parece que Deus está sendo injusto, afinal, era um pai que estava clamando por seu filho doente. Mas, para não fazermos um julgamento precipitado, temos que nos inteirar do contexto em que esta história está inserida.

Em 2ª Samuel 11, enquanto seus soldados estavam em batalha, Davi estava despreocupadamente passeando pelo palácio. E, em dado momento, do terraço, ele vê uma mulher tomando banho e a cobiça. Aquela era a mulher de um de seus soldados de elite, o heteu Urias, que estava na frente de guerra com o exército do rei. Desprezando isso, Davi possuiu a mulher, que engravidou. Para solucionar o problema, Davi manda chamar Urias. Mas, sendo homem justo, não foi para casa dormir com a sua mulher. Vendo seus planos frustrados, o rei enviou uma carta aberta pelas mãos do próprio Urias, solicitando ao general Joabe que o colocasse na frente de guerra mais acirrada. E assim, Urias morreu em combate. E Davi, sentindo-se vitorioso, toma Bate-seba como esposa. O rei achava que tudo estava resolvido e que ninguém saberia de seu pecado e seu crime. Mas nada passa despercebido pelos olhos do Senhor.

Deus envia o profeta Natã para contar-lhe uma história tocante de um homem rico toma a única ovelha de um homem pobre para servi-la como refeição para visitantes. O rei fica furioso e decreta a morte do indivíduo. E qual não foi a sua surpresa quando o profeta revela que o homem rico era o próprio Davi.

Todas às vezes que falo a respeito desse texto, faço um quadro mental de Davi, com todos os seus paramentos de rei, de pé e pedindo a morte do homem rico. E, ao ouvir que era ele o homem, senta-se pesadamente no trono com as mãos no rosto e diz: pequei.

 

O ARREPENDIMENTO QUE NÃO CANCELA AS CONSEQUÊNCIAS

 

O arrependimento de Davi foi imediato e profundo. O Salmo 51, o qual é fruto desse momento, é uma prova do quanto o pecado atingiu o rei. É interessante notar que Davi não tentou se justificar, utilizar  eufemismos e transferir a culpa para quem quer que seja. O texto hebraico registra as palavras hata al-Yahweh (pequei contra o Senhor), que demonstra o quebrantamento profundo do coração do rei.

Não há em nenhuma parte das Escrituras ou mesmo na história atual, alguém que se arrependa com o coração contrito e Deus não o perdoe. E, assim como Davi arrependeu-se instantaneamente, Deus perdoou instantaneamente o seu pecado, poupando o rei da morte civil que a lei exigia para adúlteros e homicidas (Êxodo 22.1).

Mas temos aqui uma tensão teológica central: Deus perdoou o pecado de Davi, mas não apagou as suas consequências.

 

Então disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor. E disse Natã a Davi: Também o Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás. Todavia, porquanto deste motivo aos inimigos do Senhor para blasfemarem, o filho que te nasceu certamente morrerá. (2 Samuel 12:13-14)

 

A palavra hebraica raq, traduzida em nossas Bíblias como a expressão “todavia”, funciona como uma advertência poderosa: existem consequências que o perdão não dissolve. É interessante que Davi, ao ouvir a história do homem rico, exige a restituição quádrupla ao pobre proprietário da ovelha morta.

 

E pela cordeirinha restituirá quatro vezes, porque fez tal coisa e porque não se compadeceu. (2 Samuel 12:6)

 

E então, Deus exigiu a restituição, pois seus quatro filhos morreram como consequência direta deste pecado: o filho de Bate-seba morreu doente, Amnon morreu por ordem de Absalão; Absalão foi morto pelo general Joabe, e Adonias foi morto por ordem de Salomão.

Mas, por que Deus exigiu essa consequência? Vemos que na profecia de Natã, Deus diz que Davi havia dado “motivo para os inimigos do Senhor para blasfemarem”. O pecado de Davi era supostamente privado, mas teria consequências sérias e públicas, porque o nome de Deus havia sido vituperado. Davi, como rei, um homem segundo o coração de Deus, deveria ser exemplo para seus súditos, mas seu testemunho fora manchado pelas suas decisões erradas. A quem muito é dado, muito é exigido.

Não podemos confundir perdão com impunidade. O perdão é automático e completo, dependendo do quebrantamento do coração, mas existem consequências que não podem ser apagadas. Muitos servos de Deus pensam que, por confessarem seus pecados, eliminarão suas consequências. O arrependimento e a confissão restauram o relacionamento com Deus, mas não desfazem o tecido social, emocional e físico que nossas escolhas destruíram. Por causa disso, devemos ter maturidade espiritual e humildade suficiente para entendermos que às vezes, as consequências permanecerão.

Outra pergunta surge neste ponto: se Deus perdoou Davi, por que não atendeu às suas súplicas pelo menino doente?

 

QUANDO A ORAÇÃO NÃO MUDA A DECISÃO DIVINA

 

Então Natã foi para sua casa. E o Senhor feriu a criança que a mulher de Urias dera a Davi, e ela adoeceu. Buscou Davi a Deus pela criança; jejuou Davi e, vindo, passou a noite prostrado em terra. Levantaram-se os anciãos da sua casa e vieram ter com ele para o levantar da terra; ele, porém, não quis, nem comeu com eles pão. Ao sétimo dia, morreu a criança. (2 Samuel 12:15-18).

 

Davi fez tudo o que podia para reverter a situação. O texto descreve a sua ação com grande intensidade: ele orou, jejuou, se prostrou e recusou ser consolado. Até os seus conselheiros tentaram dissuadi-lo, mas ele estava irredutível: queria que Deus revertesse o quadro.

Neste episódio, Davi pensou como muitos de nós, achando que a dedicação espiritual poderia mudar a mente de Deus. Talvez ele estivesse tentando barganhar com o Senhor, pensando que se ele se humilhasse o suficiente, Deus iria respondê-lo positivamente.

A oração e o jejum são elementos extraordinários para nossa consagração, mas eles não são ferramentas para conseguir o que queremos.

A doença do menino não foi um capricho de Deus, mas sim, a manifestação de sua Justiça. Davi matou Urias pela espada dos amonitas, agora, a espada da justiça atinge a sua casa. Entretanto, devemos entender que a recusa de Deus em salvar a criança não implica que Ele não tenha escutado a oração de Davi. Ele ouviu, mas sua resposta foi um “não”, fundamentada em propósitos maiores tanto de justiça como de ensinamento para o próprio Davi.

Existe um pensamento corrente, reforçado pelo cancioneiro cristão, de que “Deus não aguenta ver o crente chorando”. Mas, biblicamente falando, não existe quantidade de lágrimas ou mesmo tempo de consagração e jejum que faça Deus agir contra a Sua vontade soberana. Quando oramos, seja pelo que for, devemos ter em mente que Deus ouve, mas responderá conforme a sua soberana vontade.

A oração e o jejum de Davi não foram em vão, pois foram elementos para a purificação do seu coração, mas não mudaram os propósitos de Deus. Que aprendamos a não orar para mudar os planos de Deus, mas para que nos ajustemos a eles.

 

A PEDAGOGIA DA JUSTIÇA

 

Por que, pois, desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o que era mau perante ele? A Urias, o heteu, feriste à espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada dos filhos de Amom. Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa, porquanto me desprezaste e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para ser tua mulher. Mas, posto que com isto deste motivo a que blasfemassem os inimigos do Senhor, também o filho que te nasceu morrerá. (2 Samuel 12:9,10,14)

 

Olhando esta história na totalidade, percebo que Deus tinha três propósitos ao responder negativamente ao clamor de Davi. Em primeiro lugar, o Senhor estava mostrando a Davi que o seu poder temporal não tinha nenhuma valia para ele. Davi usara sua posição real para tomar o que não era seu (Bate-seba) e eliminar quem lhe estorvava (Urias). Ele achava que seu posto de rei era um salvo-conduto para fazer o que bem quisesse. Mas Deus lhe mostrou que posições temporais não influenciam nas decisões dele. O profeta disse que Davi havia “desprezado”  (hebraico bazah, tratar com desprezo, como algo sem valor) a palavra de Deus.

Em segundo lugar, Deus provou ser simultaneamente justo e misericordioso. Ele perdoou Davi, mas não deixou de agir com justiça. E, em terceiro lugar, Deus estava prezando pela sua própria glória. Davi havia dado motivos para os inimigos blasfemarem. Mas a disciplina severa de Deus servia para demonstrar que o Deus de Israel não é injusto e nem parcial, mesmo que o homem “segundo o coração de Deus” fosse quem cometeu o pecado.

Devemos entender que não é a nossa posição social ou mesmo espiritual que irá influenciar nas tomadas de decisão de Deus. O Senhor não é cúmplice dos nossos pecados porque somos seus filhos. Deus exige que analisemos as nossas decisões, pois elas têm consequências, algumas delas, irrevogáveis. Isso não serve apenas para nos punir, mas também para preservar o testemunho daqueles que servem ao Senhor, que é misericordioso e justo.

Mas, mediante a resposta negativa de Deus, Davi poderia ter protestado, reagido com amargura e até com descrença. Mas a sua reação nos ensina muito.

 

ADORAR QUANDO DEUS DIZ NÃO

 

Vendo Davi que os seus servos murmuravam entre si, entendeu que a criança estava morta; pelo que perguntou aos seus servos: Morreu a criança? Responderam: Morreu. Então Davi se levantou da terra, lavou-se, ungiu-se, mudou de roupas e foi à casa do Senhor, e adorou. Depois, veio à sua casa e pediu pão; comeram, pois, diante dele. Disseram-lhe seus servos: Que é isto que fizeste?... Davi respondeu: Enquanto a criança vivia, jejuei e chorei, pois dizia: Quem sabe se Deus não terá compaixão de mim, para que viva a criança? Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei para ela, porém ela não voltará para mim. (2 Samuel 12:19-23)

 

Que reação você tomaria após se esforçar tanto por uma coisa tão importante e receber um “não” de Deus?

A resposta de Davi foi impressionante. Ele não se revoltou e nem abandonou a fé. Mas, pelo contrário, ele se levantou, adorou e comeu. A ação de lavar-se, ungir-se, mudar de roupas, adorar no templo e comer representa que Davi voltou à sua rotina e se resignou com a vontade de Deus. Ele entendeu que a sua revolta não traria seu filho de volta. Entendeu também que a rebelião contra Deus apenas traria mais consequências danosas para ele. E o fato de ele ter dito que “iria ao menino, mas ele não viria para ele” demonstra que a esperança e a fé do rei estavam intactas. Sobretudo, Davi entendeu que a vontade de Deus é sempre a melhor, mesmo quando executada por caminhos dolorosos. A dor da disciplina serviu para quebrar o orgulho de Davi e restaurar nele a comunhão com Deus que o pecado havia manchado. O fato de ele ter adorado logo após o funeral prova que ele entendeu os propósitos do Senhor.

Quando Deus diz não, temos duas opções: amargurar-se contra Deus ou adorá-lo em meio à dor. Que aprendamos a adorar não apenas quando recebemos o que pedimos, mas, especialmente, quando Deus diz não.

Essa história nos ensina muito. Davi pecou, se arrependeu, foi perdoado, orou para o filho não morrer, mas não obteve o que pediu. Ele aprendeu que a paz não está em sempre recebermos o que queremos, mas em confiar em Deus, pois Ele sabe o que é melhor.

Que aprendamos que Deus nem sempre responde como queremos porque Ele está interessado em nossa santificação e não em nos deixar confortáveis. Que adoremos ao Senhor, mesmo diante do seu “não”, porque Ele sabe o que é melhor para nós.

 

Ricardo Castro
Pastor, escritor, músico e doutor em Teologia

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