A PERDA DA SIMPLICIDADE




Quando ainda estudava no seminário no início dos anos 2000, um de  meus professores era um dos principais conhecedores das línguas bíblicas originais aqui do meu Estado. No semestre em que ele foi escalado para a disciplina das epístolas pastorais, eu quase não cabia dentro de mim de tanta expectativa. Supunha que suas aulas seriam empolgantes demais. Contudo, ao chegarem as aulas, vi-me frustrado. As aulas deles se resumiam a ele, sentado, ler as epístolas pastorais em grego, sem nem olhar para os alunos ou se preocupar se estávamos entendendo. E a cereja do bolo eram as suas “explicações” que, de tão complicadas, era melhor que ele apenas permanecesse lendo o grego para a turma.

Relato isso para demonstrar como existem coisas simples que acabam se tornando complicadas porque as pessoas gostam de complicar. 

Tenho certeza de que você já passou também pela amarga experiência de ver coisas simples sendo apresentadas como se fossem complicadas. Sei que esse não era o objetivo do meu professor, mas às vezes as pessoas gostam de complicar as coisas para que nós, meros incautos, tenhamos que sempre recorrer a elas para obter soluções. E esse também é o estratagema de satanás, pelo menos foi isso que Paulo disse:


Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo. (2 Coríntios 11:3 | ARA)


Paulo já havia passado por muita coisa, como perseguições, prisões, naufrágios, torturas (2ª Coríntios 11.16-27), mas nada disso lhe trouxe o temor como o de que a igreja perdesse a simplicidade que há em Cristo.

Para ilustrar o seu ponto, o apóstolo utiliza a figura de Eva que tinha tudo: saúde perfeita, um esposo perfeito, um jardim perfeito, comunhão plena com Deus e o propósito simples e claro de encher a terra com uma família que desfrutaria das mesmas benesses que ela.

Mas aí entra a serpente. Não que o animal em si seja culpado, mas ele foi utilizado como o instrumento de um ser malévolo e sagaz: o diabo. 

Sabemos que o diabo é o pai de tudo o que há de mal no universo e que dele só procedem maldades. Mas, para tentar Eva, ele não veio em sua forma original e nem apresentando nada feio. Pelo contrário, ele chegou utilizando uma das criaturas de Deus e oferecendo algo que supostamente o Senhor havia escondido deles.



Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o Senhor Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais. Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. (Gênesis 3:1-5 | ARA)


O argumento do diabo tem algumas camadas. Primeiro, ele colocou dúvida nas palavras que Deus havia dito: “É assim que Deus disse?”

Seu segundo passo foi dar uma conotação diferente às palavras do Senhor: “Não comereis de toda árvore do jardim?”

E, após a mulher anuir à sua sugestão, ele abertamente mentiu, utilizando o argumento de que Deus havia encoberto a verdade deles, tolhendo o potencial do casal. Sua intenção era a de dar a entender que o Senhor tinha receio de que, uma vez alcançado o tal potencial, eles poderiam até ser deuses. Satanás simplesmente complicou as coisas.

E hoje ele permanece fazendo o mesmo. Ele continua dizendo que o evangelho é simples demais, que não pode ser grátis assim. Muitas vezes, ele coloca na mente das pessoas que Jesus não é suficiente, que a salvação não pode ser alcançada simplesmente pela fé, e de que são necessárias mais regras, mais revelações, mais métodos, mais campanhas, mais correntes, mais segredos que supostamente ficaram encobertos por séculos. 

E todo esse estratagema não é difícil de ser acessado. Basta entrar em qualquer rede social para ser bombardeado com uma miríade de teorias complexas e confusas que, em última instância, têm o objetivo de complicar o evangelho, colocando dúvidas sobre a Palavra de Deus e lhe dando novos significados que nunca foram pretendidos pelos autores sacros.

Paulo chama tudo isso de “corrupção dos sentidos”, que é quando aquele coração que era apaixonado por Jesus, que o recebeu com alegria na conversão, começa a se distrair com coisas mais “espirituais”, disseminadas por pessoas mal-intencionadas que são, na verdade, instrumentos de satanás.

E assim como o mestre delas, essas pessoas não se apresentam revelando sua verdadeira face, mas sim, travestidas de ministros de Deus.

Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo.


Não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras.  (2 Coríntios 11:13-15 | ARA)


Eles se apresentam com uma retórica bem engendrada, uma oratória impecável e uma aparência de piedade tão bem ilustrada que deixaria até os apóstolos de Cristo parecendo neófitos incautos. Porém, como Paulo revelou, eles são lobos vorazes, que não poupam o rebanho (Atos 20:29,30). Seu objetivo primário é o de encher os bolsos com os parcos recursos daqueles que aceitam as suas falácias,  porque eles são gananciosos e exploradores (2 Pedro 2.3,15; 1 Timóteo 6.5). Mas, o que mais me choca é que eles são, na grande maioria das vezes, arrogantes e presunçosos. São atrevidos, não tendo nenhum pudor em falar mal das coisas espirituais (2 Pedro 2.10,18).

E por qual motivo as pessoas lhe seguem? Por que, antes de tudo, eles pregam o que as pessoas querem ouvir (2 Timóteo 4.3). E tudo isso gera a grande parafernália teológica inventada por eles que são, na realidade, heresias destruidoras (2 Pedro 2.1,2). 

E é por causa desses falsos obreiros, discípulos de satanás, que o evangelho é difamado (2 Pedro 2.2). E assim, muitas pessoas que estão em uma busca espiritual, sedentas por Deus, acabam se afastando por verem essas más obras. E, quando não desacreditam totalmente em Deus, procuram as seitas para congregar.

Tudo isso porque os “ministros de satanás”, seguindo o exemplo de seu mestre, complicaram o evangelho.

Contudo, o evangelho é muito simples, pois ele nos revela que somos pecadores (Romanos 3.10-13, 23) e, por causa disso, não podemos nos salvar, pois estamos mortos no pecado (Efésios 2.1). Mas, Cristo veio e morreu por nós, pagando o preço pelo pecado (1 Coríntios 15.3), rasgando totalmente o registro de nossa dívida para com Deus (Colossenses 2:13,14). E assim, é pela fé em Cristo que temos vida, não pelos nossos esforços, mas pelo que Jesus fez na cruz (Efésios 2.8-9). Esse é o evangelho verdadeiro e qualquer ideia que vá além disso é de procedência maligna. 

Não podemos permitir que a  religião coloque sobre nós um jugo de regras que vão além dessa simplicidade. As teologias complexas, apresentadas com a mais refinada retórica por parte desses obreiros fraudulentos, não passam do “canto da sereia”, que quer nos seduzir a abandonar esta simplicidade. 

Todo misticismo e sincretismo religioso que graceja no nosso meio, querendo sugerir que devemos aderir  a “mistérios” e “coisas ocultas” que apenas os mais elevados podem revelar,  que seja totalmente rejeitado por nós, pois apenas complicam mais o caminho. Nada deve roubar a nossa alegria simples de sermos filhos de Deus (João 1.14).

Assim como aconteceu no Éden, quando o diabo enganou Eva com o fruto da árvore do conhecimento, ele tenta nos tirar do foco com as suas sugestões funestas, utilizando seus emissários infernais e caídos, travestidos de servos e servas de Deus. Mas, Cristo hoje nos convida à árvore da vida, onde podemos comer do seu fruto e desfrutar eternamente de Sua presença.

No Éden, Eva perdeu o jardim e a comunhão com Deus. E, como primeiro fruto desse afastamento, houve um assassinato em sua família. Mas isso não precisa ser assim conosco. Não precisamos perder o que Cristo nos deu, simplesmente permanecendo na simplicidade de Cristo, pois, apesar de ser profundo, o evangelho é muito simples. 

Ricardo Castro
Pastor, Escritor, Músico e Doutor e Teologia





Ouça os louvores de Nathan Castro: https://bitily.me/nathancastro




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