UMA CONTRADIÇÃO BÍBLICA? SAUL CONHECIA DAVI OU NÃO?
Após Saul ser reprovado por Deus, um espírito mal começou a perturbá-lo. Por causa disso, seus conselheram sugeriram que o rei convocasse um músico para tocar e aliviar esse sofrimento. E foi nesse momento que alguém sugeriu Davi, o harpista.
Diga, pois, nosso senhor a seus servos, que estão em tua presença, que busquem um homem que saiba tocar harpa; e será que, quando o espírito mau, da parte do Senhor, vier sobre ti, então, ele tocará com a sua mão, e te acharás melhor. Então, disse Saul aos seus servos: Buscai-me, pois, um homem que toque bem e trazei-mo. Então, respondeu um dos jovens e disse: Eis que tenho visto um filho de Jessé, o belemita, que sabe tocar e é valente, e animoso, e homem de guerra, e sisudo em palavras, e de gentil presença; o Senhor é com ele. E Saul enviou mensageiros a Jessé, dizendo: Envia-me Davi, teu filho, o que está com as ovelhas. Então, tomou Jessé um jumento carregado de pão, e um odre de vinho, e um cabrito e enviou-os a Saul pela mão de Davi, seu filho. Assim, Davi veio a Saul, e esteve perante ele, e o amou muito; e foi seu pajem de armas. Então, Saul mandou dizer a Jessé: Deixa estar Davi perante mim, pois achou graça a meus olhos. E sucedia que, quando o espírito mau, da parte de Deus, vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa e a tocava com a sua mão; então, Saul sentia alívio e se achava melhor, e o espírito mau se retirava dele. (1 Samuel 16:16-23)
Algum tempo depois, durante o período de guerra entre Israel e os filisteus, Golias desafiava o povo de Deus e ninguém se propunha a lutar com ele. Então, Davi, o pastor de ovelhas se voluntariou.
Vendo, porém, Saul sair Davi a encontrar-se com o filisteu, disse a Abner, o chefe do exército: De quem é filho este jovem, Abner? E disse Abner: Vive a tua alma, ó rei, que o não sei. Disse, então, o rei: Pergunta, pois, de quem é filho este jovem. Voltando, pois, Davi de ferir o filisteu, Abner o tomou consigo e o trouxe à presença de Saul, trazendo ele na mão a cabeça do filisteu. E disse-lhe Saul: De quem és filho, jovem? E disse Davi: Filho de teu servo Jessé, belemita. (1 Samuel 17:55-58)
Afinal, Saul já o conhecia ou não? Se Davi já era músico e escudeiro da corte, por que o rei parecia não conhecê-lo? Será que encontramos aqui uma clara contradição?
Essa aparente contradição vem sendo levantada por muito tempo. E, para que essa dúvida possa ser dirimida, é necessário que mergulhemos no contexto dessa passagem e dela emergiremos mais confiantes de que a Bíblia não contém contradições.
A primeira coisa que devemos fazer é perceber que, em 1 Samuel 17:55, 56, Saul não pergunta quem era Davi, mas sim de quem ele era filho. Por sua vez, em 1 Samuel 17:58, Davi responde quem era seu pai e não explica quem ele era. Por quê? O caso era que a pergunta do rei tinha a ver com paternidade, casa e procedência. Afinal, o rei havia prometido uma fortuna, isenção de impostos e até a sua própria filha em casamento (1 Samuel 17:25). Então, mesmo que essas promessas tenham sido feitas para qualquer um que derrotasse o gigante, uma vez que o vencedor iria entrar na família real, era necessário que se tivesse um mínimo de conhecimento familiar.
Já entendemos o motivo do rei perguntar a respeito da linguagem de Davi. Mas e Abner, general de Saul, não o conhecia? Sendo ele responsável pela segurança real, será que deixaria um jovem desconhecido ser introduzido à presença do rei?
O problema aqui é que, fazendo uma leitura superficial, parece-nos que, quando Davi tornou-se escudeiro, passou a morar no palácio e, assim, era necessário que Abner o conhecesse. Mas, uma leitura mais cuidadosa revelará que a realidade não era essa. 1 Samuel 17:15 nos diz que Davi não tinha um vínculo permanente com a corte, pois voltava a Belém para pastorear as ovelhas de seu pai. Davi era apenas um jovem simplório que, então, tocava harpa para aliviar a agonia do rei. Contudo, isso acontecia sazonalmente e o jovem estava mais tempo em casa do que no palácio. Assim, não era tão conhecido como ficou após derrotar o gigante.
Em resumo, Saul conhecia Davi como um jovem músico que aparecia na sala do trono vez ou outra para tocar harpa enquanto o espírito maligno lhe atormentava. O rei perguntou a Abner não sobre quem era Davi, mas sim sobre a sua procedência, já que, se ele conseguisse vencer o gigante, entraria para a família real por meio de um casamento com sua filha. O fato de Abner não saber a procedência de Davi apenas prova que ele ainda não era a figura pública que se tornou após sua vitória.
E o fato de em 1 Samuel 16:18 dizer que Davi era “valente e animoso" e um "homem de guerra" e em 17:42 dizer que era um "jovem ruivo e de gentil aspecto"? Agora sim encontramos uma contradição? De forma nenhuma!
A expressão "valente e animoso" em hebraico é "gibbor chayil". "Gibbor" é poderoso, forte e valente. E "chayil" compreende coragem, competência. Já a expressão "homem de guerra" é "vê-ish milchamah", que transmite a ideia de "alguém preparado" e não necessariamente um guerreiro experiente. Então, Davi é descrito como alguém preparado e hábil para o combate militar.
Ou seja, Davi já possuía bravura e perfil de combatente, possivelmente demonstrada na defesa do rebanho de seu pai contra animais selvagens (como leões e ursos). No Talmude, a expressão também é associada metaforicamente à habilidade de "tratar e debater" nas disputas e batalhas da Torá.
Assim, "guerreiro valente" é uma tradução possível, mas não é a única e nem necessariamente a mais precisa. A mesma expressão "gibbor chayil" também é aplicada a Saul em 1 Samuel 9:1, antes de ele ser ungido rei, mesmo sendo apenas o filho de Quis.
Assim, uma tradução mais acertada em ambos os casos seria "homem de valor e capacidade militar", sem ter a conotação de um soldado experiente no campo de batalha.
Por outro lado, pode-se questionar também por que o texto diz que Davi era um jovem franzino, ruivo e de boa aparência, mas antes diz qe ele era um homem de guerra. Jovem em hebraico é "na'ar" e abrange uma faixa ampla de idade, não significa necessariamente que Davi era uma criança, como alguns entendem. E o fato de ser franzino é que, em comparação com o gigante Golias, ele era ínfimo. Golias era um monstrengo de mais de três metros, feio e experimentado em guerra. Dessa forma, Davi parecia uma criança diante dele, sem, contudo, o ser de fato. Alguns estudiosos alegam que Davi já tinha entre 17 e 20 anos no tempo de seu embate com o filisteu.
E de onde vinha a reputação de Dave de ser um jovem capaz para o serviço militar? Certamente vem de seu embate tanto contra um urso quanto um leão para defender as ovelhas de seu pai (1 Samuel 17:34-36). Além disso, 1 Samuel 16:18 ainda revela que a reputação de Davi era de alguém "prudente em palavras" e que o "Senhor estava com ele". Então, sua reputação ia além de seus dotes musicais. Mas isso entre os da sua comunidade local de Belém, já que vimos que na corte ele era alguém ainda desconhecido.
Resumindo novamente, Davi era um jovem entre 17 e 20 anos e não uma criança. Era pastor e de boa aparência. Também era corajoso, habilidoso e capaz para o serviço militar, sem ser, necessariamente, um soldado experiente em combate. O termo "homem de guerra" descreve a sua aptidão e valor, bem como a sua reputação, e não um posto formal no exército. O fato de ele ser "franzino" era em comparação ao homenzarrão que enfrentaria e não um reconhecimento de fraqueza física, já que sozinho ele havia derrotado um urso e um leão.
O que podemos concluir disso tudo é que precisamos ler cuidadosamente as Escrituras, considerando o seu contexto imediato, remoto e também o cultural.
Bibliografia:
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KIDNER, Derek. Mensagem de 1 e 2 Samuel: poder, política e presença de Deus. São Paulo: ABU Editora, 2012.
MAZZAROLO, Isidoro. Samuel: o profeta da transição. Rio de Janeiro: Mazzarolo, 2016.
STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong: léxico hebraico, aramaico e grego de Strong. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002.
WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova. Confira o ano e a edição no exemplar utilizado.
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| Ricardo Castro Pastor, Escritor, Músico, Doutor em Teologia |
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