O DEUS QUE CAMINHA CONOSCO

 



Para provar sua valentia, certo homem decidiu cruzar um deserto levando apenas um cantil. Seus amigos tentaram dissuadi-lo, mas ele permaneceu irredutível. No dia do desafio, seus companheiros tentaram, uma última vez, impedi-lo de cometer tal imprudência, mas o esforço foi em vão.

Como era de se esperar, em pouco tempo o cantil esvaziou-se e o homem encontrou-se em graves apuros. Ele tinha apenas duas opções: retornar e enfrentar a vergonha do fracasso ou seguir adiante para provar sua hombridade. Escolheu a segunda.

Após longo tempo sob um sol causticante, sem forças para continuar, ele caiu prostrado. Ao olhar para o lado, avistou uma vegetação rasteira, sinal inequívoco de água próxima. Contudo, recordando-se de filmes sobre o deserto, convenceu-se de que aquilo era apenas uma miragem. Reunindo o pouco vigor que lhe restava, levantou-se e retomou a caminhada. Poucos metros depois, prostrou-se novamente e, desta vez, não mais se ergueu.

Com o passar do tempo e a ausência de notícias, seus amigos organizaram uma expedição de resgate. Ao chegarem ao local, encontraram-no sem vida ao lado de um pequeno oásis. Se ele tivesse discernido que ali havia água real, não teria perecido antes do socorro chegar.

Essa tragédia ilustra uma realidade espiritual profunda: a incapacidade de discernir a provisão de Deus em meio à provação. Muitas vezes, o que nos impede de avançar não é a escassez de recursos, mas a nossa própria cegueira espiritual diante do que é real. Antes de julgarmos esse homem, devemos olhar para nós mesmos. Quantas vezes sucumbimos tendo a resposta ao nosso lado? Quantas vezes a solução caminha conosco, mas permanecemos de olhos fechados?

Foi exatamente o que aconteceu com dois discípulos que caminharam, conversaram e até jantaram com Jesus, mas não o reconheceram, conforme registra o evangelista em Lucas 24:13-35.

Contudo, por que não o reconheceram? No versículo 16, Lucas esclarece que o impedimento não se devia a uma suposta invisibilidade de Jesus, mas ao fato de que os olhos deles estavam, por assim dizer, cerrados.

Os olhos deles, porém, estavam como que impedidos de o reconhecer. (Lucas 24:16)

Lucas utiliza o verbo grego ekratoûnto (ἐκρατοῦντο) para descrever que seus olhos estavam retidos ou bloqueados. Isso indica a existência de uma força que obstruía a visão. Da mesma forma que não podemos julgar o homem no deserto, não devemos condenar os discípulos no caminho de Emaús.

Quantas vezes fatores diversos nos impedem de reconhecer a ação divina? É paradoxal como percebemos prontamente a suposta ausência de Deus, mas somos incapazes de notar Sua presença manifesta. Esta leitura é um convite divino para abrirmos os olhos; o problema central raramente é a distância de Deus, mas sim a nossa cegueira.

No relato de Lucas, identificamos quatro razões pelas quais falhamos em reconhecer que Deus está ao nosso lado.

 

1ª RAZÃO: A TRISTEZA QUE OBSCURECE A PERCEPÇÃO

Onze quilômetros era a distância que os dois discípulos precisavam percorrer de Jerusalém a Emaús. No entanto, o que mais lhes pesava não era o desgaste físico, mas o fardo emocional. Eles deixaram Jerusalém com a sensação de que tudo havia acabado. Aquele que criam ser o Messias estava morto. O versículo 17 revela que estavam entristecidos (do grego skythropoí - σκυθρωποί). Lucas os descreve como mais do que meramente decepcionados; eles possuíam um semblante sombrio e abatido. O evangelista foi preciso na escolha do termo: eles estavam emocionalmente devastados.

Foi precisamente nesse momento, no auge da dor, que Jesus se aproximou e passou a caminhar com eles.

E aconteceu que, enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles. (Lucas 24:15)

Esta é uma verdade reconfortante: podemos ter a certeza de que, assim como ocorreu naquele dia, quando estamos emocionalmente destruídos, Jesus coloca-se ao nosso lado e caminha conosco.

Todavia, o versículo seguinte apresenta o dilema:

Os seus olhos, porém, estavam como que impedidos de o reconhecer (Lucas 24:16).

Por que não o reconheceram? É possível deduzir que o sofrimento intenso foi o fator determinante. Em estados de profunda angústia, nossa percepção da realidade ao nosso redor é drasticamente reduzida. Contudo, mesmo quando não o percebemos, a Escritura garante que Deus está próximo, especialmente quando o sentimos distante.

Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado. (Salmos 34:18)

A ironia reside no fato de que, justamente quando mais necessitamos e Ele se faz mais presente, nossos olhos estão impedidos pela dor. Quantas vezes você clamou por uma saída que já estava à sua porta? Quantas vezes buscou um milagre grandioso, ignorando que o Senhor já o operava silenciosamente?

Saiba que, independentemente de sua capacidade de percepção, o Senhor caminha ao seu lado. Não permita que as lágrimas do sofrimento o privem da certeza da presença divina. A dor é real, mas a presença dEle é a realidade suprema. Enquanto sua dor sugere abandono, a Palavra de Deus afirma proximidade.

 

2ª RAZÃO: A BUSCA POR DEUS EM MOLDES PRE-ESTABELECIDOS

Durante a caminhada, Jesus questiona os discípulos sobre o tema da conversa. Na resposta de Cleopas, identificamos a segunda razão para a falta de reconhecimento:

Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam. (Lucas 24:21)

Note o uso do verbo no passado: esperávamos. O termo grego elpízomen (ἐλπίζομεν) sugere uma esperança que era contínua, mas que cessou. Isso é revelador. Eles aguardavam um tipo específico de libertação: a política. Esperavam um Messias triunfante, que expulsaria os romanos pela força da espada. Em vez disso, encontraram um Messias de origem humilde, que entrou em Jerusalém montado em um jumentinho e foi executado. Eles tinham, aos seus olhos, um Messias derrotado e sepultado.

O obstáculo para o reconhecimento não era a ausência de Jesus, mas as expectativas rígidas sobre como Ele deveria agir. Eles possuíam um molde pré-fabricado para o Messias, e Jesus não se enquadrava nele. O problema não foi a falta de resposta divina, mas o fato de a resposta ter vindo em uma forma diferente da desejada. Jesus estava ali, mas não correspondia à projeção que eles haviam construído.

Como observou C. S. Lewis em sua obra O Problema da Dor: Nós não pedimos a Deus que faça a Sua vontade; pedimos que Ele faça a nossa vontade e, depois, assinamos com o nome dEle.

Quando Deus não se ajusta aos nossos moldes ou não responde com a intensidade que imaginamos, tendemos a crer em Sua inação. No entanto, Ele frequentemente realiza algo muito mais excelente do que planejamos; nossa visão é que carece de alcance para perceber.

Os discípulos de Emaús estavam tão concentrados na expectativa de um Messias político que foram incapazes de perceber o Messias ressurreto que caminhava ao seu lado. Muitas vezes, essa fixação em nossos próprios planos gera uma forma de cegueira espiritual, impedindo-nos de discernir a presença divina na realidade que nos cerca. Em algum momento, você esperou que Deus agisse de determinada forma, mas Ele agiu de maneira totalmente distinta? Você já definiu previamente como a resposta divina deveria chegar, por intermédio de quem, em qual momento e sob qual forma? Você possui um molde para Deus? Deus não está limitado ao formato de nossas expectativas; Ele é soberano e surpreendente, agindo frequentemente de forma inesperada. Portanto, devemos cessar a tentativa de ditar Seu agir e abrir nossos olhos para discernir o que Ele já está realizando.

 

3ª RAZÃO: O DESCONHECIMENTO DAS ESCRITURAS

Após a resposta de Cleopas, os discípulos recebem tanto uma repreensão quanto uma revelação:

Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! (Lucas 24:25).

Jesus os denominou néscios (tolos) porque, embora tivessem as Escrituras, não as compreendiam. Possuíam acesso à informação, mas não a processavam interiormente. Ele também os chamou de tardos de coração, indicando uma inércia espiritual que os impedia de conectar a Palavra de Deus à realidade prática de suas vidas. Se compreendessem Isaías 53, saberiam que o Messias deveria sofrer. Se compreendessem o Salmo 22, saberiam que a cruz era o Seu destino. Se compreendessem Oseias 6, saberiam que a ressurreição era uma promessa estabelecida. Como conheciam a letra das Escrituras, mas não a sua essência, Jesus lhes expõe a Palavra:

E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras (Lucas 24:27).

Jesus não lhes oferece uma nova revelação, mas abre seus olhos para o que já havia sido registrado. Possuir a Bíblia e conhecê-la são conceitos radicalmente distintos. Atualmente, temos amplo acesso ao texto bíblico, mas carecemos de profundidade em seu conhecimento. Este é o motivo pelo qual falhamos em reconhecer quando Ele age conforme o que já fora prometido. Você consegue ver o perigo da ignorância bíblica? Ela nos torna cegos para a ação de Deus e nos leva a confundir o agir divino com o acaso, a coincidência ou a sorte.

O meu povo é destruído porque lhe falta o conhecimento (Oseias 4:6).

Qual é o nível do seu conhecimento bíblico? Você cultiva o hábito da leitura diária? Ou assemelha-se aos discípulos, que tinham as Escrituras, mas não as conheciam o suficiente para identificar a presença de Deus?

 

4ª RAZÃO: A INTIMIDADE QUE REVELA O QUE A DISTÂNCIA OCULTA

Após a exposição bíblica, Jesus fez menção de seguir adiante, mas os discípulos insistiram para que ficasse:

Mas eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina. E entrou para ficar com eles (Lucas 24:29).

Observe que Jesus não se impôs; Ele esperou pelo convite. O motivo do pedido era o ardor que sentiam no coração enquanto conversavam com aquele estranho. Ao convidá-lo para a mesa — o espaço mais pessoal e íntimo de suas vidas — o milagre ocorreu:

E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu; então, se lhes abriram os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da presença deles (Lucas 24:30-31).

O evangelista utiliza o termo diēnoíchthēsan (διηνοíχθησαν) para descrever a abertura dos olhos. O uso da voz passiva indica que eles não abriram os próprios olhos, mas que foram abertos por Deus. Esse momento de iluminação ocorreu na comunhão da mesa. A revelação de Deus manifesta-se na intimidade, não na distância. Enquanto os discípulos apenas dialogavam com Jesus como um estranho no caminho, Ele permaneceu velado. A percepção mudou apenas quando O convidaram para entrar em sua casa. Da mesma forma, quando tratamos Jesus meramente como um recurso para momentos de crise, pouco experimentamos de Sua glória. Todavia, quando O convidamos para a comunhão cotidiana, nossa visão é transformada. Você já convidou Jesus para permanecer com você? Não apenas para caminhar ou conversar ocasionalmente, mas para uma intimidade profunda e radical? A revelação de quem Deus é não ocorre na pressa, mas na mesa. Após o desaparecimento de Jesus, os discípulos refletiram:

E disseram um ao outro: Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras? (Lucas 24:32).

Note que o coração deles já ardia antes mesmo de seus olhos serem abertos. Se, ao ler este texto, você sente seu coração arder, saiba que esta é a evidência de que Jesus já caminha ao seu lado. Você já O reconheceu? Já O convidou para entrar? O Senhor aguarda o seu convite para transformar sua percepção. Quando Ele entra, tudo passa a fazer sentido. Não permita que este momento passe.

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Ricardo Castro
Pastor, Escritor, Músico e Doutor em Teologia


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