REVESTIDOS DE VIRTUDES

 



 Consideremos um cenário hipotético. No mesmo dia, você conhece duas pessoas distintas. A primeira é um homem visivelmente religioso. Ele se veste de forma austera, evita palavras de baixo calão e demonstra polidez. Entretanto, revela-se frio, distante, ressentido e orgulhoso. A segunda é uma pessoa simples, sem grande instrução, que se veste de modo despojado. Contudo, dela transbordam compaixão e gentileza. Suas mãos estão sempre abertas e sua presença irradia paz.

Qual dessas duas pessoas você reconheceria como cristã?

Se a mesma pergunta fosse feita aos apóstolos, eles não hesitariam em responder que o segundo homem é, indiscutivelmente, um cristão. Isso ocorre porque criam e ensinavam que o cristianismo não é meramente uma doutrina. Trata-se de um estilo de vida prático, visível e amalgamado ao cotidiano. Com esse propósito, os apóstolos compilaram em suas epístolas o que os teólogos denominam Catálogos de Virtudes. São listas concretas das qualidades que devem caracterizar os seguidores de Cristo.

Esses catálogos não representam regras para agradar a Deus. Antes, descrevem o resultado da ação do Espírito Santo naqueles que se entregaram a Jesus. Constituem, em essência, o perfil do cidadão do Reino dos céus.

Visto que o Novo Testamento é normativo para a Igreja contemporânea, é vital conhecermos essas virtudes para cultivá-las diariamente. Proponho-me, neste texto, a percorrer alguns desses catálogos. Buscaremos descobrir a origem, a formação, a expressão e o impacto das virtudes que compõem o DNA do caráter cristão.

 ORIGEM DAS VIRTUDES

O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. (Gálatas 5:22-23)

Ao tratar das virtudes cristãs, um erro comum é considerá-las projetos de autoaperfeiçoamento, como se fossem metas espirituais alcançadas pelo esforço humano. Entretanto, notemos que Paulo denomina essas virtudes como fruto do Espírito Santo. A intenção do apóstolo era traçar uma analogia entre a árvore frutífera e o cristão. Assim como a árvore não se esforça para produzir, mas frutifica porque sua natureza a determina, o mesmo ocorre com o crente. Paulo não enumera tarefas a cumprir, mas aponta para um fruto que surge organicamente de uma vida ligada ao Espírito.

Devemos observar ainda que, no versículo 22, Paulo menciona as obras da carne no plural, enquanto se refere ao fruto do Espírito no singular. Tal distinção indica que o caráter de Cristo manifestado no cristão não é uma coleção de virtudes isoladas, mas uma realidade única com diversas facetas. É como um diamante lapidado que, embora único, possui múltiplos lados. Quem é moldado pelo Espírito tem acesso à plenitude dessas qualidades, e não apenas a fragmentos delas.

Paulo atribui essas virtudes ao Espírito Santo. Logo, é Ele quem as produz, e não a religiosidade do indivíduo ou seu temperamento natural. Sua origem é divina.

Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. (João 15:4-5)

Diante disso, a pergunta pertinente é: temos buscado as virtudes cristãs como uma disciplina religiosa ou como o fruto de nosso relacionamento com Deus? Há uma diferença abissal entre o pensamento “preciso melhorar” e o “preciso de mais intimidade com o Espírito”. Assim, compreendemos que a vida espiritual não começa com uma resolução da vontade, mas com a rendição da alma.

Vimos que a origem das virtudes não procede de nós, mas do Espírito. Todavia, como esse fruto se desenvolve em nossa caminhada?

 A PROGRESSÃO DE UMA VIDA EM CRESCIMENTO

Se Paulo, em Gálatas 5, revela a origem das virtudes, Pedro, em sua segunda epístola, revela que esse fruto segue um processo deliberado em escala ascendente.

Por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor. (2ª Pedro 1:5-7)

Você percebeu os degraus da virtude? Fé → virtude → conhecimento → domínio próprio → perseverança → piedade → fraternidade → amor. Pedro utiliza deliberadamente a palavra grega epichorēgēsate, traduzida como acrescentai. A mensagem central era a de suprir abundantemente. Em suma, cada degrau sustenta o próximo.

Se as virtudes são fruto do Espírito, por que Pedro afirma que devemos acrescentá-las diligentemente? A resposta é simples: a graça de Deus não anula a responsabilidade humana; antes, ela a capacita. A salvação é inteiramente obra de Deus em nós (monergismo), contudo somos chamados a cooperar com o que o Espírito produz em nosso interior (sinergismo).

A formação do caráter cristão implica uma postura ativa. Existem abismos dos quais o crente deve fugir, assim como existem cumes que ele deve perseguir.

Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor. (2ª Timóteo 2:22)

Quanto ao consumo de conteúdos digitais, que tão de perto nos assedia, a Bíblia nos orienta a utilizar filtros. Isso não significa que o uso das redes sociais seja pecado, mas exige cautela com o que preenchemos nossa alma. As Escrituras são claras sobre o que deve ocupar nossa mente:

Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento. (Filipenses 4:8)

Qual tem sido a dieta da sua mente? Você tem crescido espiritualmente ou está estagnado? A graça não é pretexto para a estagnação; pelo contrário, ela é o combustível para o amadurecimento.

O caráter cristão forma-se no interior, na intimidade com o Espírito, e avança gradativamente. Entretanto, ele nunca permanece recluso; ele transborda para os relacionamentos. É nessa arena que as virtudes são realmente testadas e reveladas.

 AS VIRTUDES NO CAMPO DE PROVA

Os catálogos de virtudes não foram escritos para contemplativos isolados. Foram endereçados a igrejas compostas por pessoas reais, com conflitos, feridas abertas e personalidades difíceis. É nesse contexto que as virtudes ganham peso.

Paulo, em uma metáfora poderosa, compara as virtudes a uma vestimenta, na qual cada peça representa uma qualidade específica.

Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade. Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós; acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição. Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos. (Colossenses 3:12-15)

Com certeza, neste contexto de relacionamentos, o destaque recai sobre o perdão mencionado no verso 13. Entretanto, ele não se fundamenta no arrependimento do ofensor, mas no modelo de Cristo: Assim como o Senhor vos perdoou. O padrão aqui é escandalosamente alto e sobrenatural.

É interessante notar que, em todas as Epístolas, os apóstolos instigam os cristãos à unidade. Contudo, o chamado não é para criar a unidade, mas para guardá-la, pois ela já foi estabelecida pelo Espírito Santo. A unidade já nos foi concedida. Nossa responsabilidade reside em não destruí-la.

Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz (Efésios 4:2,3).

Como você tem reagido aos relacionamentos difíceis? O texto de Colossenses nos desafia a perdoar como Cristo perdoou. Você possui coragem para esse passo?

Até aqui, observamos que as virtudes têm sua origem no Espírito Santo. Elas se formam no caráter interior, expressando-se e sendo testadas nos relacionamentos. Entretanto, as virtudes possuem um alcance mais abrangente: exercem uma força transformadora sobre a sociedade ao redor.

 AS VIRTUDES COMO TESTEMUNHO NO MUNDO

Um dos maiores catálogos de virtudes do Novo Testamento encontra-se em Romanos 12:9-21. Por ser uma lista extensa, não a reproduzirei integralmente, mas gostaria de destacar o início e o fim desse registro.

O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegando-vos ao bem (Romanos 12:9).

Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. (Romanos 12:21).

A lista inicia-se com o amor e encerra-se com um imperativo contracultural. Paulo não se refere apenas à igreja, mas também à cultura, visto que aborda o perdão àqueles que nos perseguem. Dessa forma, o apóstolo discorre claramente sobre a postura do crente no mundo.

Poderíamos dividir a lista de Romanos 12 da seguinte maneira: primeiro, a fundação (v. 9 — o amor); depois, as virtudes internas (vs. 10-13 — afeição fraternal, honra mútua, diligência, fervor no Espírito, esperança, paciência, oração, generosidade, hospitalidade). Por fim, as virtudes diante de hostilidades (vs. 14-21 — bênção sobre os perseguidores, empatia, harmonia, humildade, renúncia à vingança, provisão para o inimigo, superação do mal pelo bem).

Entendemos, portanto, que as virtudes cristãs são tanto doxológicas (glorificam a Deus) quanto apologéticas (revelam a realidade do evangelho ao mundo). Sua vida tem impactado aqueles que estão do lado de fora da igreja?

Diante disso, a pergunta que não podemos deixar de fazer é: por que tudo isso importa?

As virtudes não são um fim em si mesmas. Elas são o meio pelo qual o caráter de Cristo se torna visível em pessoas reais, em relacionamentos reais e em comunidades imperfeitas. O mundo precisa da nossa pregação, mas, da mesma forma, necessita que a nossa vida seja um sermão vivo.

Que não apenas conheçamos as virtudes, mas que sejamos portadores vivos delas.

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RICARDO CASTRO
Pastor, Escritor, Músico, Doutor em Teologia

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