A BATALHA QUE VOCÊ NÃO PODE IGNORAR

 


    Certa vez soube que a cultura indígena americana diz que dentro de cada ser humano existem dois animais selvagens numa luta mortal: um branco (representando as coisas boas) e um preto (representando as coisas ruins). E quem vence a luta? O animal ao qual alimentarmos mais.

Apesar de isso ser uma lenda, retrata muito bem a guerra que todos temos dentro de nós. Essa é uma batalha invisível aos nossos olhos, mas que tem consequências pesadas e que incide tanto na nossa vida física quanto espiritual.

Mas, além disso, a Bíblia também retrata esta batalha devastadora. E especificamente os apóstolos têm muito a nos dizer a respeito dos meandros desse conflito. Eles dedicaram grandes porções dos seus escritos sobre este assunto. Porém não como uma especulação teológica somente, mas como uma mensagem pastoral urgente. Eles sabiam que o maior perigo para os cristãos não vem de fora – do império romano, no caso deles – mas sim da natureza caída que ainda habita dentro de nós e que luta diuturnamente contra a nova natureza em Cristo.

E essa batalha continua. Todos nós, ao acordar pela manhã, nos encontramos diante de uma encruzilhada: viver segundo os padrões da carne ou caminhar segundo a direção do Espírito Santo. E, neste caso, não há terreno neutro e nem zona de conforto. É como Jesus disse: Não se pode servir a dois senhores.

Neste texto, falarei a respeito de duas facetas dessa batalha: O andar no Espírito e as obras da Carne.

ANDAR NO ESPÍRITO: O CHAMADO À NOVA DIREÇÃO DE VIDA

A primeira realidade que devemos aprender é que a vida cristã não é um esforço em favor do aprimoramento moral, mas um caminhar contínuo sob a direção do Espírito Santo de Deus. E esse “andar” não pode ser apenas um momento em nossas vidas, mas sim, um estilo de vida.

A fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. (Romanos 8:4-5)

No trecho acima, Paulo usou a palavra grega peripatéō, que indica não um evento pontual, mas um padrão habitual de conduta, uma direção constante. Assim, entendemos que as obras da carne estão presentes em nossas vidas diariamente.

Observamos também que o apóstolo não diz que o preceito da lei se cumpre “por nós”, como se fôssemos agentes desse cumprimento, mas “em nós”, que é uma obra do Espírito que opera dentro de nós. A justiça que nenhum ser humano conseguia produzir agora é realizada naqueles que andam segundo o Espírito.

Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. (Romanos 8:13-14)

E neste ponto, Paulo nos apresenta os caminhos desta batalha: se vivermos pela carne, inexoravelmente encontraremos a morte. Mas, por outro lado, a vida no Espírito conduz à vida. Contudo, não podemos pensar que o viver no Espírito é uma obra unicamente de Deus como a Salvação é. Neste ponto, deve haver uma interação nossa, pois a expressão “guiados pelo Espírito” (Grego ágontai Pneúmati Theoú) revela uma entrega voluntária à direção divina. E esta é a marca dos filhos de Deus não uma perfeição instantânea, mas uma direção contínua.

O IMPERATIVO DE CAMINHAR NO ESPÍRITO E A LIBERDADE

Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. (Gálatas 5:16)

Uma das piores coisas em uma batalha é a falta de certeza da vitória. Contudo, na batalha entre a carne e o Espírito, há uma promessa tremenda. O apóstolo não diz “lutem com todas as forças que talvez consigam vencer”. Ele nos orienta a andar no Espírito e a vitória sobre a carne será uma consequência natural. O segredo da vitória não está na resistência, mas na entrega positiva a Deus. Quando o nosso coração está entregue ao Espírito Santo, os desejos da carne perdem o seu poder de atração.

Contudo, quando se fala em santidade, muitas pessoas pensam em termos de legalismo. Ou seja, as pessoas têm em mente que o ser guiado pelo Espírito implica no cumprimento de regras religiosas. Porém, a vida no Espírito transcende o legalismo.

Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a lei. (Gálatas 5:18)

Quem anda pelo Espírito não precisa da Lei como supervisora externa, porque a Lei de Deus já está escrita em seu coração pelo próprio Espírito. Mas isso não significa que a lei moral foi abolida, mas sim que ela foi internalizada.

Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito. (Gálatas 5:25)

No texto acima, que corrobora com tudo o que vimos até aqui, há uma lógica teológica: se o Espírito nos deu Vida (regeneração), devemos, então, andar segundo o Espírito (santificação). Trocando em miúdos, se recebemos a nova vida gerada pelo Espírito, devemos andar alinhados com Ele. A posição de santos deve gerar a prática da santificação; a identidade de cristão deve moldar a nossa conduta.

Como está o seu caminhar com o Espírito Santo? Você se alegra em estar em comunhão com seus irmãos na igreja? Você encontra alegria em ler a Bíblia regularmente? Seus pensamentos e decisões são guiados pela carne ou pelo Espírito? Andar pelo Espírito é uma questão de direção e não de perfeição.

A dependência do Espírito Santo deve ser cultivada. Assim como o maná precisava ser recolhido a cada manhã, a vida no Espírito requer uma renovação diária.

AS OBRAS DA CARNE: O CATÁLOGO DA NATUREZA DECAÍDA

Uma atitude acertada para curar qualquer doença é conhecer a sua causa. Para que possamos andar no Espírito de forma satisfatória, devemos saber o que é a vida na carne e quais os seus frutos amargos. E o apóstolo Paulo abre diante de nós o prontuário completo da natureza humana caída.

Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz; por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. (Romanos 8:5-8)

Paulo usa a expressão grega phrónēma tēs sarkós, que para nós foi traduzida como pendor da carne, que é o modo de pensar e sentir governado pela natureza caída. E então, ele faz três declarações devastadoras: primeiro, esse pendor conduz à morte. Segundo, ele constitui-se em inimizade contra Deus. Terceiro, ele é incapaz de se submeter à lei de Deus. A carne não é apenas fraca; ela é hostil a Deus. Não é que ela não queira se submeter ao Espírito, ela simplesmente não pode.

Contudo, os que andam segundo o Espírito não devem nada à carne, porque ela já foi destronada de suas vidas.

REVESTIMENTO ESPIRITUAL E O PERIGO DAS PROVISÕES

Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências. (Romanos 13:14)

O verso acima, que foi decisivo na conversão do patrístico Agostinho de Hipona, contém uma dupla ordem: revestir-se (positivamente) e não fazer provisão (negativamente).

Assim como revestir-se de um agasalho protege da chuva e de outras intempéries, revestir-se de Cristo significa figuradamente um revestimento que define nossas atitudes, pensamentos e identidade.

Já a palavra prónoian (provisão), usada por Paulo, evoca a imagem de alguém que planeja antecipadamente, que prepara o terreno, que cria condições favoráveis. Quantas vezes não buscamos justificativas em todos os meios para nos livrarmos da culpa do que fazemos? Quantas vezes não brincamos com o pecado? Quantas vezes não dizemos para nós mesmos que determinada coisa é cultural, etc.? Tudo isso é provisionar para a carne.

A ANATOMIA DO PECADO: DAS ATITUDES SEXUAIS ÀS 'RESPEITÁVEIS'

Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam. (Gálatas 5:19-21)

Assim como encontramos nas Escrituras catálogos de virtudes, também encontramos catálogos das obras da carne. Observemos que Paulo não trata apenas de pecados sexuais (prostituição, impureza, lascívia) ou de pecados referentes ao ocultismo (idolatria, feitiçarias). Ele também inclui pecados que são considerados “respeitáveis” (inimizades, ciúmes, iras, discórdias, invejas). Esses últimos encontram livre acesso no meio da igreja. Entretanto, a lista não é exaustiva, isto é, ela não contém todos os pecados. Isso porque, quando Paulo usa o termo “coisas semelhantes a essas”, está nos dizendo que este catálogo de pecados é representativo. A carne é muito criativa na arte de gerar pecado.

É importante também observar que o apóstolo usa a palavra praticar (grego prássō) para indicar que essas coisas se tornam um estilo de vida, um padrão contínuo, uma entrega deliberada às obras da carne. E por isso, a advertência do apóstolo deve ser levada a sério, pois ele diz que quem pratica tais coisas não herdará o reino de Deus.

Entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. (Efésios 2:3)

Mesmo antes de sua conversão ao cristianismo, Paulo era um religioso austero. Mas, mesmo assim, ele se inclui nessa descrição: "Entre os quais também todos nós andamos outrora". Isso nos diz que ninguém fica de fora, ninguém escapa. A vida na carne não é apenas para grandes pecadores, mas é uma experiência comum a todos.

UMA DECISÃO DIÁRIA DE GOVERNO

Por esse motivo, devemos fazer um inventário de nossas vidas relendo o catálogo das obras da carne de Gálatas 5:19-21, visando descobrir se alguma delas ainda persiste em nós, talvez de forma sutil ou “respeitável”. O fato de o catálogo conter pecados respeitáveis nos mostra que não devemos apenas rechaçar os pecados mais escandalosos, mas também aqueles que estão sob disfarces sofisticados.

Outra coisa que devemos analisar neste inventário é a “provisão para a carne”. Ou seja, devemos eliminar todas as coisas que propiciam a queda no pecado. Matar a planta do pecado não adiantará se não removermos suas raízes.

Devemos entender que o antídoto para as obras da carne não é outro a não ser a vida sob os auspícios do Espírito Santo. Observemos que Paulo disse que “éramos” filhos da ira, mas não somos mais, pois Cristo nos resgatou e o Espírito Santo habita em nós.

Por fim, não podemos negar que diariamente nos envolvemos nesta batalha entre as obras da carne e a vida no Espírito. De que forma nos posicionamos? Neste campo de batalha não existe neutralidade: ou cedemos aos reclames da carne ou nos submetemos à condução do Espírito.

Essa luta não nos é apresentada pelos apóstolos como uma ideia abstrata, mas como um chamado urgente à decisão prática diária. Contudo, a vitória não reside no esforço humano, um melhoramento moral, mas sim na entrega total, deliberada e diária ao Espírito Santo.

A questão mais forte aqui não é se há um conflito dentro de nós – esse conflito é inevitável e universal – mas qual a natureza que alimentamos. A carne se fortalece com provisão; o Espírito, com comunhão. Quando alimentamos a nossa natureza espiritual, a santificação deixa de ser um ideal inatingível e se torna uma realidade concreta.

No fim de tudo, não é a intensidade da luta que define o resultado, mas a quem entregamos o governo da nossa vida.

Ricardo Castro
Pastor, Escritor, Músico, Doutor em Teologia

Adquira meus livros: https://bitily.me/pastorricardocastrolivros

Adquira meus e-books: https://bitily.me/pastorricardocastroebooks

Ouça minha pregações: https://bitily.me/pastorricardocastrospotify

Acesse meu canal: https://bitily.me/canalpastorricardocastro

Ouça os louvores de Nathan Castro: https://bitily.me/nathancastro

Comentários

Postagens mais visitadas